Intimidade familiar: uma ferramenta básica de prevenção ao suicídio

Se você agora entende a importância disso, mas reconhece que falta intimidade em sua família, comece hoje mesmo a mudar essa situação.

Fonte: Guiame, Marisa LoboAtualizado: sexta-feira, 24 de setembro de 2021 17:50
(Foto: Canva)
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O suicídio é um dos temas mais delicados para se tratar em qualquer circunstância, especialmente no ambiente familiar. Entretanto, o assunto não pode passar despercebido aos olhos da família, especialmente dos pais, dado o contexto em que vivemos, onde conteúdos muito preocupantes se proliferam mundo a fora, sendo facilmente alcançados pelos mais jovens através das mídias digitais.

Por causa disso, devemos sempre buscar meios de nos precaver ao máximo das influências negativas que cercam os nossos filhos, e é pensando nisso que quero tratar no artigo desta semana sobre a importância da intimidade familiar, algo crucial na relação entre pais e filhos.

Quando falamos de suicídio, temos como referência estatística alguns dos países onde esse problema é avassalador, como os Estados Unidos, onde esta é a segunda maior causa de morte entre os jovens de 10 a 19 anos. Apesar dos jovens masculinos serem os mais afetados, dados recentes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano têm revelado um aumento preocupante entre as garotas de 10 a 14 anos, segundo uma pesquisa do Nationwide Children’s Hospital.

Com o surgimento da pandemia do novo coronavírus, no começo de 2020 (acredita-se), o número de suicídios entre os jovens também aumentou, assim como o de abuso de drogas e outras problemáticas de ordem emocional, como a depressão e o transtorno de ansiedade. A morte por overdose, por exemplo, bateu um recorde de 93 mil casos nos EUA no ano passado, e tudo isso faz parte de uma conjuntura que deve ser analisada e encarada, também, no seio familiar.

A intimidade como fator protetivo

Chegamos aqui ao ponto-chave da nossa reflexão, a intimidade! Mas de qual tipo de intimidade estamos nos referindo? Evidentemente não é a sexual, e sim à relacional, que nada mais é do que o modo como os integrantes da família se relacionam entre si.

Na clínica psicológica, um dos relatos mais comuns entre os pacientes que apresentam ideação suicida (pensamentos recorrentes sobre tirar a própria vida; vontade de "morrer"; "subir"; "não estar mais aqui"; elaboração e busca por planos; etc.) é o de solidão, falta de empatia e compreensão.

Muitas vezes esses relatos partem de pessoas que convivem em uma família numerosa, onde há pai e mãe, irmãos, etc. Então, o que explica esse sentimento de solidão? A resposta está justamente na ausência de intimidade. Isso porque, a simples presença de pessoas debaixo do mesmo teto não é sinônimo de presença afetiva.

A intimidade é o que torna a presença significativa do ponto de vista relacional/afetivo. É quando uma pessoa sabe que pode contar com a outra quando precisa desabafar, sorrir, chorar, compartilhar experiências das mais diversas, e com isso externar os sentimentos e ideais positivos ou negativos. A sensação de empatia e compreensão também é fruto desse contexto.

É a partir dessa relação de confiança entre os membros da família que a intimidade se torna um fator de proteção contra o suicídio, e isso vale para todos, desde os mais jovens aos mais velhos. Infelizmente, no mundo atual, com tantas distrações virtuais, muitos convivem na mesma casa, mas cada indivíduo em seu próprio mundo, e o que parece bom, na verdade, é péssimo, pois produz um tipo de distanciamento quase imperceptível que aos poucos minando a relação familiar.

Por fim, destaco que a intimidade não é conquistada de uma hora para outra, mas sim construída! Os pais precisam entender que a proximidade com os filhos ocorre através do relacionamento contínuo com eles, onde há um interesse genuíno na busca pelas coisas do dia-a-dia. É preciso dedicação, sabedoria e algumas vezes criatividade.

Se você agora entende a importância disso, mas reconhece que falta intimidade em sua família, comece hoje mesmo a mudar essa situação. Não deixe para depois! Em outra oportunidade discutiremos formas de criar engajamento familiar, mas até lá você mesmo poderá exercitar isso, por exemplo, reunindo a família numa mesa de jantar ainda hoje, que tal? Pense nisso.

Por Marisa Lobo é psicóloga, especialista em Direitos Humanos, presidente do movimento Pró-Mulher e autora dos livros "Por que as pessoas Mentem?", "A Ideologia de Gênero na Educação" e "Famílias em Perigo".

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: O cristão e a ansiedade: como lidar com algo aparentemente fora de controle?

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