O grito da alma precisa ser escutado

Ele pode ser escutado de várias formas. Aqui, nesse texto, serão abordadas duas vias indispensáveis: o silêncio e a fala.

Fonte: Guiame, Clarice EbertAtualizado: quarta-feira, 8 de setembro de 2021 15:22
(Foto: Canva)
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O que é o grito da alma? Pode-se dizer que é a expressão das necessidades mais profundas da vida humana. Compõe a essência da pessoa humana que clama por existência. Numa vivência de muitos boicotes da expressão da essência de uma pessoa, a saúde mental poderá ficar seriamente comprometida. Isso pode acontecer em qualquer contexto, como por exemplo, no ambiente social, conjugal, familiar, laboral e eclesiástico.

Quando a alma fala e não é escutada, ela pode gritar, e cada vez mais alto, por meio de adoecimentos diversos no corpo, na relação, na psiquê e mesmo no espírito. O que leva à uma necessidade inevitável: o grito da alma precisa ser escutado. Mas, como escutar esse grito? Ele pode ser escutado de várias formas. Aqui, nesse texto, serão abordadas duas vias indispensáveis: o silêncio e a fala.

No silêncio a alma cria uma linguagem própria, que revela as necessidades mais profundas, mesmo aquelas que foram amassadas e empurradas para uma não existência. Essa via de escuta da alma nem sempre é confortável, pois além de revelar uma linguagem libertadora, pode também revelar uma linguagem assustadora. Ela é assustadora quando revela nossos monstros internos, como também o nosso potencial destrutivo, que nos mantém reféns de construções passadas, e que se manifestam impositivas e atualizadas no presente. A linguagem pelo silêncio pode ser libertadora quando revela a nossa imagem e semelhança com o divino, como também o nosso potencial construtivo para ressignificar e reestruturar as construções anteriores, bem como para favorecer novas possibilidades na vida presente.

No silêncio, ainda podemos aprimorar nossa escuta para ouvir a fala divina, que se inclina ao nosso interior com compaixão, misericórdia e graça. A fala divina não se pode fabricar pela razão, nem pela imaginação de quem é Deus e de como ele deveria se manifestar, mas é uma fala livre e espontânea para se mostrar como o Eterno quiser. Enquanto falamos podemos inviabilizar essa escuta sensível do divino. É preciso calar para escutar. Calar as palavras e os pensamentos. Assim, a meditação numa dimensão espiritual nos conecta à essa escuta.

No entanto, silenciar pode ser difícil para nós humanos, apressados e agitados pela infinidade de estímulos provindos do mundo externo. Facilmente, ao silenciarmos, antes de escutar a fala divina que nos conecta à uma linguagem libertadora, escutamos uma linguagem assustadora, que nos coloca em contato com o nosso lado pior, aquele que não consegue sair das superficialidades e nem dos autoflagelos existenciais.  Silenciar mais um pouco será preciso, para ultrapassar a escuta da linguagem assustadora e alcançar a profundidade de uma escuta de algo mais promissor, que nos acorde para melhores condições existenciais, tanto para a vida terrena como a eterna.

Portanto, o grito da alma para ser escutado, precisa do silêncio. Mas, além dessa escuta é preciso que seja escutado pela fala. Uma fala que se expresse pelo manifesto do percebido nas entranhas da alma. Muitas questões angustiantes podem se apresentar: Onde está o potencial construtivo? Porque a imagem e semelhança de Deus se mostra bloqueada na expressão da vida? Onde foi que se perdeu o sentido da vida? Onde foi parar o desejo de viver? Será que ainda existe alguém que se importe e me escute?

Essas podem ser perguntas aflitivas provindas do grito da alma. E elas precisam ser escutadas.

Quando o grito da alma não é escutado, pode não haver reconhecimento do sofrimento, as posturas e escolhas podem ficar reféns de padrões impostos, a essência (potencial) na relação humana pode ficar bloqueada, subjugada e boicotada, e a vida pode perder o sentido. Mesmo que se tenha uma fé consistente e arraigada no Eterno, a interação humana pode favorecer a saúde mental ou não. Somos seres em relação! Nas relações podemos nos encontrar ou perder.

Seja na família, casamento, amizade, trabalho ou ministério: os gritos da alma precisam ser escutados e acolhidos para que as necessidades básicas (físicas, emocionais, relacionais, espirituais) sejam favorecidas. Somente assim, o sofrimento pode ser reconhecido para ser ressignificado e reconfigurado na continuidade do que se faz, as posturas e escolhas podem ser revisadas e reestruturadas para serem desconstruídas as repetições do que insiste em fazer sofrer, e a essência (potencial) de cada ser na relação humana pode encontrar um lugar de existência.

Portanto, a saúde mental é facilitada na escuta do grito da alma, tanto pela meditação no silêncio, onde é aprimorada uma escuta da interioridade em suas necessidades e potenciais, como também pela fala e escuta interativa com o divino e os semelhantes. A saúde mental é beneficiada no aprendizado de se ver a si e ao outro com amor e respeito, de se dialogar com assertividade e empatia, de se reconhecer a humanidade, tanto na relação humana como na divina.

Dessa forma, a saúde mental não se mapeia apenas pela responsabilidade do indivíduo, numa clausura de superação individualista, como se as situações, as contingências e as relações não precisassem ser levadas em conta. Ao contrário, a saúde mental se estabelece na relação divina e humana. O contexto sociocultural-relacional, onde uma pessoa vive, precisa ser considerado. Isso significa que o grito da alma não diz respeito ao indivíduo apenas, mas a todos, pois somos responsáveis por construir contextos vivenciais mais humanos e justos, onde o cuidado de uns aos outros seja marcado pelo amor, igualdade, justiça, solidariedade e compaixão.

Portanto, escutar o grito da alma se faz na escuta silenciosa e também na partilha, tanto com o Eterno, como com o semelhante, que saiba escutar com empatia. É o “eu” encontrando um espaço de escuta e fala, junto a outros “eus”. Tanto junto ao Grande outro, que é o divino “Eu sou”, como os outros semelhantes humanos, que feitos da mesma matéria, se mostrem acolhedores e facilitadores na integração dos sentidos da vida.

A escuta do grito da alma pode devolver a vontade de viver.

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Por Clarice Ebert, Psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Coordenadora e palestrante, em parceria com seu marido, do Ministério Vida Melhor (um ministério de cursos e palestras). Membro e docente de EIRENE do Brasil.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: As mães e o colo da alma!

 

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