Esquema de lavagem ocorria na 25 de março de São Paulo

Doleiro fazia falsas importações para lojistas em comércio popular.

Fonte: globo.comAtualizado: sexta-feira, 12 de dezembro de 2014 12:05
lava-jato
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CURITIBA — O esquema de desvio e lavagem de dinheiro de propina na Petrobras era bastante “profissional e complexo”, de acordo com o coordenador da força-tarefa do Ministério Público, Deltan Dallagnol. Ao apresentar denúncia contra 36 envolvidos no escândalo, o procurador da República detalhou como os operadores financeiros eram parte essencial do mecanismo que envolvia empreiteiras e funcionários públicos.

Um desses esquemas era operado por Leonardo Meirelles, doleiro que tinha como clientes vários comerciantes da 25 de Março, tradicional rua de comércio popular no Centro de São Paulo. O intrincado sistema funcionava assim: havia clientes de Meirelles que desejavam enviar dinheiro para o exterior por meio de importações fraudadas. Leonardo resolvia a questão usando contratos de importação fictícios. O dinheiro saía mas os bens correspondentes nunca entravam no país. Havia uma troca.

Com a parceria do doleiro Alberto Youssef, o dinheiro que seguia para o exterior era o desviado da Petrobras e o dinheiro vivo dos lojistas, na verdade, era usado para pagamento de propinas a políticos e funcionários da estatal.

— Algumas dessas empresas de Meirelles sequer tinham cadastro no Siscomex (cadastro de comércio exterior), nem autorização para fazer importações — afirmou Dallagnol.

25 de marçoSegundo o Ministério Público Federal, havia ao menos quatro modalidades de fraude. Uma delas era a contratação de consultorias de pessoas ligadas ao esquema, que recebiam por serviços que não eram executados. Outra envolvia as empreiteiras, que contratavam serviços dos mais variados das empresas controladas pelo doleiro. No caso da Camargo Corrêa, uma de suas fornecedoras, a Sanko-Sider, foi usada para receber dinheiro desviado da Petrobras e repassar a Youssef.

CORRUPÇÃO E LAVAGEM

No total, foram praticados 154 atos de corrupção e 105 de lavagem de dinheiro pelos 36 réus denunciados ontem, entre funcionários públicos, executivos de empreiteiras e doleiros. Segundo o Ministério Público Federal, esses contratos somam R$ 74 milhões apenas com as quatro empresas de Alberto Youssef.

O primeiro passo era dado pelas empreiteiras, que levavam dinheiro vivo aos operadores financeiros, transferiam os valores por meio de instituições financeiras localizadas fora do Brasil ou ainda assinavam contratos que não valiam nada com empresas de fachada, muitas vezes estabelecidas em prédios vazios e sem funcionários.

Para o dinheiro chegar até os funcionários influentes da Petrobras, o caminho era quase o mesmo. Era muitas vezes entregue em espécie, depositado em uma conta no exterior, ou dado em forma de mercadoria, como carros de luxo, como o Range Rover Evoque, da Land Rover, avaliado em mais de R$ 200 mil, com que Youssef presenteou Paulo Roberto Costa.

O Ministério Público Federal descobriu várias empresas de fechada contratadas pelas empreiteiras com o objetivo exclusivo de lavar dinheiro. As ligadas a Youssef são a GDF Investimentos, a MO Consultoria, a RCI Software e a Empreiteira Rigidez. Nenhuma exercia atividade de fato, e três sequer possuíam funcionários.

Elas recebiam repasses das empreiteiras por contratos fictícios como consultoria de informática e construção de shopping. E nenhuma das empresas tinha funcionário capaz de executar tais tarefas.

— Além disso, as empreiteiras jamais foram capazes de comprovar ter recebido os serviços contratados — diz Dallagnol.

Para Rodrigo Janot, procurador-geral da República, estes elementos tornam pouco crível a tese da defesa de que as empresas sofriam extorsão para participar do esquema.

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