Proposta de incluir “multigênero” no hebraico é contestada: “Ataque à palavra do Eterno”

A estudante foi criticada por rabinos pela sua tentativa de alterar as Escrituras: “O hebraico é a língua da santidade”.

Fonte: Guiame, Cris BeloniAtualizado: quinta-feira, 16 de setembro de 2021 15:02
Rabbi Adin Even-Israel Steinsaltz, Jerusalem. (Foto: Shefa Maggid Books)
Rabbi Adin Even-Israel Steinsaltz, Jerusalem. (Foto: Shefa Maggid Books)

Recentemente, uma universitária do curso de Design, da Faculdade HIT, em Israel, apresentou seu projeto de conclusão com o título “Hebraico MultiGênero”. O objetivo de Michal Shomer é acrescentar novas letras ao alfabeto hebraico. 

Seu projeto não foi bem aceito pelos judeus, principalmente quando a feminista almejou alterar a Bíblia, de forma que ela passasse a ter uma “linguagem neutra” em termos de gênero. 

Michal foi duramente criticada e seu projeto foi considerado como um ataque contra os valores religiosos judaicos. Ela rebateu dizendo: “Como feminista e cidadã, estou comprometida a usar minhas habilidades e minha educação para a mudança social”, disse em entrevista ao The Forward. 

O pastor e hebraísta Luiz Sayão acredita que este é um trabalho “absolutamente impossível” de ser executado. “Não há possibilidade de fazer isso com a língua hebraica. A busca dessa ‘neutralização’ parece sem sentido. Não tem a mínima chance. É uma proposta que vai desaparecer por si só”, disse ao Guiame.


Pastor e hebraísta Luiz Sayão. (Foto: Reprodução/Instagram)

Sobre o projeto

A designer explica que o “hebraico multigênero” é um sistema de novas letras hebraicas que permite a leitura e escrita multigênero. “O projeto tem dois objetivos: a apresentação de mulheres na língua hebraica e a criação de um novo espaço para identidades binárias de gênero”. 

Ao querer alterar as Escrituras, porém, pensando em adaptar a Bíblia ao público LGBT, vários religiosos se opuseram, entre eles o rabino Avratam Itzkowitz, que também é professor e escriba de textos sagrados.

“As letras e suas formas na escrita Ashuri [língua neoaramaica assíria] são usadas para todos os textos sagrados e são precisamente descritas e ordenadas pela Halacha [lei da Torá]”, explicou o rabino.

“Existem muitas regras relativas à formação adequada das letras que devem ser respeitadas para que um texto escrito seja considerado religiosamente válido. A transmissão de escriba para escriba é muito precisa. A kedusha [santidade] desaparece se você altera a forma das letras”, continuou.

Michal, no entanto, se opõe às regras, declarando que, em sua opinião, “a linguagem que torna o masculino como padrão reforça a ideia de que o masculino é poderoso”.

“As mulheres devem se acostumar com a ideia de que sempre devemos nos ver como 'incluídas'. Foi por isso que desenhei essas letras”, disse ela ao The Forward. 

A designer adicionou 11 consoantes e uma vogal às 22 letras e cinco vogais do hebraico. As revisões de Michal não incluíram nenhum guia para a pronúncia dos acréscimos. 

“Quem lê essas cartas consegue identificar visualmente tanto as formas masculinas quanto as femininas e, ao mesmo tempo, se referem também a todos os gêneros simultaneamente”, explicou.

“O hebraico é a língua da santidade”

Para os rabinos, o que Michal não entende é que o “hebraico é a linguagem da santidade”. Itzkowitz assinalou que as Escrituras Sagradas são meticulosamente verificadas e reexaminadas e até mesmo o menor defeito na forma das letras pode tornar o texto ritualmente impróprio ou inválido.

Ele explicou que, de acordo com o Talmud Babilônico, a Torá foi dada por Moisés no alfabeto assírio e mais tarde alterada para a escrita Paleo-Hebraica e, depois, recebeu novamente a escrita Ashurit durante o tempo de Esdras.

“Os Dez Mandamentos foram escritos pelo dedo de Deus [Êxodo 31.18] e de acordo com a literatura judaica, as letras foram inscritas, cortando inteiramente as tábuas de pedra. No entanto, as letras eram milagrosamente legíveis de ambos os lados. É com essas cartas que Deus criou o mundo”, frisou.

“Mudar as letras e as palavras não causa nenhum dano, mas remove qualquer habilidade que as palavras tenham de canalizar a energia de Deus para o mundo. Esse projeto essencialmente torna o hebraico como qualquer outra língua”, sentenciou o rabino.

“Cada palavra em hebraico tem um gênero gramatical. De acordo com o Zohar, cada aspecto da realidade é dividido em masculino e feminino, o que é muito mais do que gênero. Refere-se a mashpia (algo que afeta) e mushpa (algo que é afetado). 

O shamayim (céus) é masculino e aretz (terra) é feminino, apesar de não ter uma terminação gramaticalmente feminina. Isso ocorre porque os céus influenciam, enviando sustento, e a terra recebe”, explicou.


Rabino Mário Moreno. (Foto: Guiame)

Pensando através de um movimento

Mas para Michal nenhuma dessas preocupações parece ser legítima. Ela está focada em alterar uma língua que considera patriarcal. 

“Em muitos casos, as mulheres são moderadas a partir do discurso. No hebraico existe uma divisão dicotômica entre um homem e uma mulher, e não há espaço para simplificar as coisas. Senti que há dissonância entre o que a língua representa e quem ela deveria representar”, insistiu. 

“Nunca pensei que tantas pessoas se opusessem tão fortemente ao meu projeto. As cartas têm como objetivo contribuir para a inclusão e igualdade na sociedade israelense. Como alguém pode se opor a isso?”, questionou.

A designer tentou esclarecer que seu projeto é uma sugestão para solucionar a dissonância. “Eu esperava ‘atualizar’ o idioma para que ele expressasse uma nova opção de representatividade para todos, tanto na leitura quanto na escrita”, disse.

Para o rabino Mário Moreno, existe um erro básico na proposta do projeto. “Ao nomeá-lo como ‘Hebraico MultiGênero’ já é notável o erro, pois as pessoas nascem com o gênero masculino ou feminino. A biologia não mente”, disse ao Guiame.

Além disso, ele apontou para o fato de que “se isso já está acontecendo em Israel, podemos identificar um ataque das trevas usando essa ação para que se propague para o resto do mundo”, disse ao mencionar que Israel está em evidência.

“Hoje, a esquerda domina Israel [politicamente], o que permite que esse tipo de acontecimento tenha uma proporção maior. Há coisas muito estranhas acontecendo por lá. Eles estão tentando alterar o próprio calendário judaico. É um ataque à palavra do Eterno. As consequências serão nefastas”, alertou.

Espaço multigênero na língua hebraica

Esta questão da preferência implícita de gênero foi abordada pelo governo israelense. Foram aprovadas leis que exigem que os anúncios de emprego sejam escritos de uma forma que proclame explicitamente que o emprego é oferecido tanto para homens quanto para mulheres. 

A escrita de Michal, incompreensível para falantes nativos de hebraico, foi adotada pelo Comitê para Igualdade de Gênero do Knesset, que os colocou em placas de escritório. O novo Aleph Bet também foi adotado pela Força Aérea Israelense, que passou a utilizá-lo em suas bases.

Atualmente, há cerca de 9 milhões de falantes de hebraico em todo o mundo, dos quais 7 milhões falam fluentemente. Os judeus haredi [tementes] evitam usar o hebraico nas conversas do dia a dia, preferindo usar o iídiche, uma mistura de hebraico com alemão. 

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