
Vanessa Bentes é psicóloga e teóloga. Pós-graduada em Psicologia Clínica (PUC-SP), Saúde Mental (Sírio-Libanês) e Psicologia Hospitalar (Albert Einstein). Escritora do livro Corações Voltados para Deus e Inclinados para Sua Vontade

Existe um sofrimento que, muitas vezes, não encontra espaço para ser verbalizado: o de quem precisa permanecer forte enquanto acompanha a fragilidade de alguém que ama.
Cuidar é uma expressão profunda de amor, responsabilidade e humanidade. Entretanto, quando o cuidado se torna uma rotina ininterrupta, acompanhada de renúncias, medo, privação de descanso e sobrecarga emocional, aquele que cuida também pode adoecer.
O cuidador frequentemente aprende a reconhecer os sinais de desconforto do outro, mas nem sempre consegue identificar os próprios. Adia suas necessidades, silencia suas angústias e transforma o próprio cansaço em algo secundário. Aos poucos, pode deixar de existir para si mesmo enquanto tenta permanecer inteiro para alguém.
Na perspectiva da Psicologia, esse fenômeno é compreendido, entre outras dimensões, pelo conceito de sobrecarga do cuidador. Cardoso et al. (2012), em uma revisão sistemática sobre o tema, identificaram associações entre níveis elevados de sobrecarga, sentimentos de culpa e sintomas depressivos. Mais recentemente, Barbosa et al. (2025) evidenciaram os impactos do cuidado prolongado na saúde mental de familiares de pacientes oncológicos, destacando a importância do suporte sociofamiliar e multiprofissional.
Não se trata apenas de cansaço físico. Trata-se de uma experiência que pode comprometer a identidade, a autonomia, os vínculos sociais e o equilíbrio emocional. Há cuidadores que convivem com a ansiedade constante, a sensação de impotência, o medo da perda e até a culpa por desejarem alguns instantes longe da responsabilidade de cuidar.
É preciso compreender: desejar descanso não significa amar menos. Reconhecer os próprios limites não representa abandono. E precisar de ajuda não diminui a dignidade de quem se dedica ao outro.
A própria Escritura apresenta uma perspectiva profundamente humana sobre essa necessidade. Em Marcos 6:31, Jesus convida seus discípulos a se retirarem para um lugar à parte e descansarem um pouco:
“E ele disse-lhes: Vinde vós, aqui à parte, a um lugar deserto, e repousai um pouco. Porque havia muitos que iam e vinham, e não tinham tempo para comer.” Marcos 6:31 (ARC)
A passagem revela que até aqueles envolvidos em uma missão importante necessitam de pausa. O descanso não é ausência de propósito; é também uma condição para a continuidade da caminhada.
Em Gálatas 6:2, somos orientados a levar as cargas uns dos outros:
“Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo.” Gálatas 6:2 (ARC)
Essa responsabilidade, contudo, não deve ser interpretada como a obrigação de uma única pessoa sustentar sozinha o sofrimento de todos. O cuidado também precisa ser compartilhado.
Na prática clínica e hospitalar, olhar para o cuidador significa reconhecer alguém que não é apenas acompanhante, familiar ou responsável por um paciente. É um sujeito com história, necessidades emocionais, vulnerabilidades e direitos. Sua saúde mental merece atenção, escuta qualificada e acolhimento.
Por isso, é fundamental que famílias, instituições e equipes multiprofissionais desenvolvam estratégias de apoio, divisão de responsabilidades, orientação e acompanhamento psicológico quando necessário. Cuidar de quem cuida não é um gesto complementar à assistência: é parte de uma compreensão integral do cuidado.
Talvez uma das perguntas mais necessárias diante do sofrimento humano não seja apenas quem está recebendo os cuidados, mas também quem está oferecendo sustentação emocional a essa pessoa.
Porque ninguém deveria precisar adoecer para provar que sabe amar.
O cuidador não precisa ser incansável para ser amoroso, nem invulnerável para ser necessário. Também precisa de colo, escuta, descanso e presença.
Afinal, por trás de cada pessoa que cuida, existe outra vida que também merece ser preservada.
Referências bibliográficas:
1. CARDOSO, Lucilene et al. Perspectivas atuais sobre a sobrecarga do cuidador em saúde mental. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 46, n. 2, p. 513-517, 2012. DOI: https://doi.org/10.1590/S0080-62342012000200033.
2. BARBOSA, Luiz Augusto Souza et al. Saúde mental de cuidadores(as) de pacientes oncológicos: revisão sistemática. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, v. 28, e005, 2025. DOI: https://doi.org/10.57167/Rev-SBPH.2025.v28.707.
3. BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Almeida Revista e Corrigida (ARC). Marcos 6:31; Gálatas 6:2.
Vanessa Bentes é psicóloga e teóloga, pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Saúde Mental pelo Sírio-Libanês e Psicologia Hospitalar pelo Albert Einstein. É autora do livro “Corações Voltados para Deus” e “Inclinados para Sua Vontade”, publicados pela Reino Editorial.
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