A Festa das Trombetas e o sacrifício de Isaque

Aqui neste artigo também estaremos falando sobre os Dias Santos.

Fonte: Guiame, Mário MorenoAtualizado: terça-feira, 25 de agosto de 2020 15:56
(Foto: Shema Ysrael)
(Foto: Shema Ysrael)

Em todo o mundo – e Israel também – estamos chegando em uma época chamada Chagim: Festas ou Feriados. Há duas palavras Hebraicas que se ouve incessantemente durante este período: Acherey Hachagim – “depois dos Feriados”, tudo é “congelado”, transferido para depois desta época (muito parecido com a temporada de Natal/Ano Novo, com uma pequena diferença, que a temporada de Natal / Ano Novo dura duas semanas, e o nosso Chagim dura quase um mês – o mês Judaico de Tishrei).

Aqui neste artigo também estaremos falando sobre os Dias Santos. Por agora vamos falar sobre as Festas, e uma vez que esta é a semana da Festa das Trombetas (este é o nome bíblico e o significado desta Festa), este será o nosso assunto de hoje.

O nome Hebraico bíblico para este feriado é Yom Teruah (יוֹם תְּרוּעָה‎‎), literalmente “dia [de] clamar/explodir”, traduzido como a Festa das Trombetas. Você provavelmente conhece este feriado como Rosh HaShanah – Ano Novo Judaico. “Rosh” é a palavra Hebraica para “cabeça”, “Ha” é o artigo definido (“o”), e “Shanah” significa “ano”. Assim Rosh HaShanah significa Cabeça [do] Ano, referindo-se ao Ano Novo Judaico (a propósito, um dos quatro “anos novos” em Israel).

O termo “Rosh HaShanah” em seu significado atual não aparece na Torah. Levítico 23:24 refere-se à festa do primeiro dia do sétimo mês como Zikhron Teru’ah ([um] memorial [de] soprar [de trombetas]); também é referido na mesma parte do Levítico como ‘שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן’ (shabbat shabbaton) e um “dia santo de D-us”. Números 29:1 chama a festa de Yom Teru’ah (“Dia [de] soprar [a Trombeta]”), e especifica diferentes sacrifícios que eram para ser executados.

Rosh HaShanah é também o Dia do Julgamento: Yom HaDin. De acordo com o tratado do Talmud no dia de Rosh HaShanah são abertos três livros: o Livro da Vida, para os justos, o Livro da Morte, para os mais perversos, que recebem o selo da morte e um terceiro livro, para uma classe intermediária. Para a classe intermediária é permitido um prazo de dez dias, até o Yom Kipur, para refletir e se arrepender –não ocorrendo o juízo final até o Yom Kippur.

A leitura na Torah para Rosh HaShanah está nos capítulos 21 e 22 do livro de Gênesis. É impossível superestimar a importância desses capítulos no mistério de D-us. No passado, minha atenção sempre foi atraída para Akedat Isaque em Gênesis 22 e ao fato de que Gênesis 22 é lido em todo Ano Novo Judaico. Por que lemos a história do sacrifício de Isaque em todo Rosh HaShanah? Uma das explicações tradicionais diz que o shofar, feito de um chifre de carneiro, lembra a ligação de Isaque e o cordeiro que D-us providenciou como um sacrifício em seu lugar. Pessoalmente acredito que a conexão seja muito mais profunda. Um autor escreveu o seguinte sobre esta situação:

“Convido você a visualizar aquela montanha, o local de um dos eventos mais estranhos na história de Israel. Imagine o velho pai, que com suas próprias mãos amarra seu amado filho e que, com as suas próprias mãos, colocalo-o no altar. Com a faca na mão, ele já tinha esticado o braço para matá-lo, mas… é interrompido por uma voz dos céus, ele olha para cima e vê um carneiro preso pelos chifres em uma moita, e ele então o sacrifica em holocausto no lugar do filho originalmente destinado para este sacrifício. Quando milênios depois recordamos a montanha e estas três figuras, nossos corações literalmente palpitam com a consciência do contato quase físico com este segredo especial, como o prenuncio de um mistério de D-us incrivelmente importante e apenas parcialmente compreendido e ainda não revelado. Aqui nós revisamos algo que, sem dúvida, ainda pertence a D-us, mas a turbulência interna incompreensível, que nos agita a ponto de tremer por fora, atesta que esta imagem é como um episódio de Sua previdência e planos para a história do mundo, formado pela nossa visão. Esta morte há muito tempo atrás do cordeiro sacrificial, que teve lugar talvez mesmo antes do início dos tempos, mas que de alguma forma ainda ressoa hoje, ultrapassa todos os limites da história, do tempo e do fim do mundo. Algo incrivelmente importante está ocorrendo aqui. Algo está a tomar forma no contexto de todas as longas eras da história humana: um mistério não resolvido está por trás dessas ações. Você está ciente de que todos os anos durante o feriado de Rosh HaShanah, no início de cada ano Judaico, esta história intitulada “Akedah”, a história de amarrar e sacrificar Isaque, é lida nas sinagogas? Por quê? O que é tão importante para nós que toda vez que entramos um ano novo de nossa caminhada terrena, novamente olhamos para esta história? Por que o pai teve que sacrificar seu filho? Quem era este filho, colocado sobre o altar por seu pai? E este carneiro amarrado a uma moita pelos chifres – o que ele simboliza? Achei uma passagem interessante na Haggadah: “Ouvi por trás do Véu Celestial estas palavras: ‘Não Isaque, mas o carneiro predestinado para o holocausto…’”

O Talmude diz sobre o que ocorreu com Avraham: “Alguns dizem que precisamos ler com ortografia diferente: “Elevar” em vez de “Teste”. E eu digo, o conteúdo da Parashah (a história) prova que é um ‘teste’. E especialistas explicam que נסה (Teste) significa – saber o que existe no presente. E o Gaon (um líder judeu da Babilônia) explicou que o objetivo do teste era mostrar Sua justiça ao povo. Mas o Gaon certamente sabia que quando Avraham amarrou seu filho, ninguém mais estava lá. E outros dizem “vá para a terra de Moriah…”

Dentro desta cena deste prólogo, está contida a totalidade do projeto de D-us de todos os tempos, Seu plano completo para a humanidade não só para a história de Israel, mas na verdade para toda a história da humanidade. Não é por coincidência que o local onde tudo isso ocorre tornou-se mais tarde o principal ponto focal de D-us no mundo visível. É o Monte Moriá, o Monte do Templo em Jerusalém, no qual será construído o Templo que o Senhor um dia encherá com Sua glória. Mais uma vez o Talmude nos declara: “… E ele lhe disse: ‘Vá embora para a terra de Moriá e leve-o para lá em holocausto’ (Bereshit 22:2) Qual é a terra de Moriá? Há um monte de Sábios aqui, cada um dizendo sua própria resposta. R ‘Yanai diz’ o que é Moriah? O lugar de onde a admiração e o medo (morah e yirah) se espalham pelo mundo: ‘Você é temido, ó D-us, do seu santuário …’ (Tehillim 68:36) R ‘Chiya, o ancião, diz’ a terra da qual a instrução (hora’ah) sai para o mundo, ‘como diz “… porque de Sião sairá a Torah…” (Ieshayahu 2:3) Outra explicação: a terra da qual, no futuro…” ‘D-us proverá para Si o cordeiro para o holocausto,’ (Gn 22:8) Abraão diz a Isaque, e embora lá na montanha no início vemos apenas duas figuras –Abraão e Isaque, pai e filho– depois de um tempo parece que há alguém no cenário: o carneiro preso em uma moita pelos chifres. (Gn 22:13). O cordeiro que D-us providenciou para Si mesmo para o holocausto. Nem Abraão, nem nós, os leitores pudemos ver como e quando ele chegou lá; ele simplesmente estava lá e tinha estado desde o início. As fontes Judaicas dizem que o carneiro, o cordeiro, já havia sido morto antes da criação do mundo. É por isso que a cada renascimento do ano nós lemos sobre esta história que de alguma forma ecoa de fora do tempo. A sua luz se pode discernir como, no plano de D-us para a salvação da humanidade, num primeiro momento existem dois: D-us e Israel, que é chamado o filho e primogênito, mas na dispensação da plenitude dos tempos (Ef 1:10) verifica-se que há também ‘o Cordeiro’, que, desde a criação do mundo estava destinado ao sacrifício. Lembre-se a parte do Haggadah: “Ouvi por trás do Véu Celestial estas palavras: ‘Não Isaque, mas o cordeiro predestinado para o holocausto’”. O Cordeiro morto desde a fundação do mundo substitui, no altar, aquele a quem o próprio D-us chamou Seu filho e primogênito”.

Adaptação: Mário Moreno.

Por Rav. Mário Moreno, fundador e líder do Ministério Profético Shema Israel e da Congregação Judaico Messiânica Shema Israel na cidade de Votorantim. Escritor, autor de diversas obras, tradutor da Brit Hadasha – Novo Testamento e conferencista atuando na área de Restauração da Noiva.

*O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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