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Graça distorcida

Durante milênios, a humanidade tenta entender Deus; tenta colocar todo conhecimento de Deus dentro de uma jarra de vidro...

fonte: Guiame, Fernando Queiróz

Atualizado: Terça-feira, 10 Dezembro de 2019 as 12:42

(Foto: Getty)
(Foto: Getty)

Escrevo esse texto com uma real preocupação. Acredite, eu apaguei e reescrevi esse texto diversas vezes. Quero ser cuidadoso no falar e sábio nas escolhas das palavras. No entanto, também não quero deixar com que essa preocupação me leve a não transmitir a mensagem necessária.

Durante milênios, a humanidade tenta entender Deus; tenta colocar todo conhecimento de Deus dentro de uma jarra de vidro... Como se isso fosse possível. Por mais que há muitos homens entendedores da Palavra e que dedicaram a vida para o estudo Dela, ninguém consegue, dentro de nossa mera capacidade humana, compreender Deus de forma integral (Sim. Isso inclui você, que tem uma foto do John Piper no plano de fundo do celular). Afinal, Deus deixou Sua Palavra. Ele é quem nos dá a capacidade de pensar, raciocinar e estudar.

Onde quero chegar? Uma das suas principais características tem sido brutalmente distorcida, e muitos aplaudem isso. A qual característica estou me referindo? Amor.

É impossível colocarmos o amor de Deus dentro do nosso padrão de amor. O amor Dele, por nós, é indescritível. Ele nos ama de forma incondicional. Ele nos ama tanto, que enviou seu único Filho para morrer em nosso lugar. O problema é quando tentamos colocar esse amor dentro do que nós somos capazes de imaginar e sentir. Quando arriscamos fazer isso, distorcemos a Bíblia e nos envolvemos em heresias. Começamos a pensar que Deus nos trata como se Ele fosse seu namorado, e, não é bem por aí.

Deus não te ama como seu namorado ou sua namorada te ama; não te ama como seus amigos te amam; não te ama como seu marido te ama; não te ama como sua esposa te ama; não te ama como seus pais te amam (pondo na balança, eu diria que esse chegaria mais perto) e não te ama como seu animal de estimação te ama. O amor de Deus é muito maior que todos esses. Portanto, cometemos um grande erro ao tentar comparar o amor Dele com qualquer um desses. É tão complexo, que, muitos pastores dizem que entenderam um pouco mais do amor de Deus quando se tornaram pais. Por isso a importância de Mateus 7:9-11. Mesmo ao se tornarem pais, ainda assim, o amor de Deus é maior.

Deus te ama muito, mas Ele quer fazer algo em sua vida. Ele quer transformar sua vida; fazer-te livre do pecado e ter relacionamento com você. Para chegar a isso, muitas vezes, dói. Isso mexe com nosso ego; prepotência; independência e feridas. Ele te ama tanto que Ele quer te moldar, e, muitas vezes, moldar dói.

Quando tentamos colocar o amor de Deus em um padrão humano, tornamos o Evangelho antropocêntrico e distorcemos mais uma questão chave: a graça.

Infelizmente, e é triste dizer isso, a graça de Deus tem sido “usada” como um passe livre para o pecado. Ouvimos coisas do tipo: “Deus tampa os olhos quando você pega; Jesus comeria a fruta do Éden; Deus arrisca Sua santidade por quem Ele ama.” Todas essas falas são errôneas. Deus não contradiz Sua Palavra. Ele é Santo.

Sim. Deus te ama, independente dos seus pecados e a graça que recebemos é imerecida. No entanto, se a graça não nos leva a querer viver uma vida de santidade, uma vida livre do pecado, não entendemos nada. Ele jamais será compatível com nosso pecado.

Romanos 6 nos explica isso de forma clara. Por favor, leia depois.

Lembra quando falei que ser moldado dói? Ter um entendimento errôneo da graça nos leva a não compreender o tratamento de Deus e essa dor. A cruz é o maior sinal de que somos imperfeitos e que precisamos de um Salvador. Por isso que uma má compreensão do amor e da graça de Deus nos leva mais longe da cruz e mais perto do nosso ego inflado (que, por sinal, não vai nos sustentar nos dias ruins).

O que quero dizer com tudo isso? É com total carinho e cuidado que quero dizer: cuidado com quem escutam e seguem. Nem tudo que é gostoso de ouvir é o real evangelho. De forma alguma estou dizendo que devemos pular para o total oposto e pensar que vamos levar um raio na cabeça quando pecamos. Não é isso (por mais que já sei que não serei compreendido por alguns, nesse texto).  Mas uma vida com Cristo, uma vida real com Ele, deve nos levar a buscá-Lo, reconhecer e abandonar nosso pecado; não a fechar os olhos e fingir que não existe.

Siga e seja pastoreado por quem te aproxima da cruz, não do seu ego. Um evangelho que não te leva aos pés da cruz é vazio, barato e rouba de nós a alegria real de viver uma vida real com Cristo.

Por Fernando Queiróz, psicólogo; líder do ministério Change (jovens de 18-25 anos) na Primeira Igreja Batista de Santo André, onde também trabalhou com adolescentes. Filho de pastor; amante da teologia e da antropologia cultural.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Entre saber e crer

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