Covarde corajoso

Talvez estas duas características expliquem um pouco do ânimo atual no convívio social tão complexo dos nossos dias.

Fonte: Guiame, Edmilson Ferreira MendesAtualizado: quinta-feira, 17 de outubro de 2019 15:48
(Foto: Getty)
(Foto: Getty)

Homero dizia que “a flecha não fere os covardes”. Afinal, eles já fugiram e flechas só ferem quem alcançam. E é justamente nos momentos das “flechas”, aqueles nos quais mais precisamos de apoio e ajuda, que descobrimos quem são os covardes que andam ao nosso lado, via de regra eles fogem. Momentos “flechas” são aqueles quando enfrentamos perigos, derrotas, traições, dissabores e todo tipo de ataque a nossa honra, emoção, razão, dignidade. São ataques violentos de todos os lados através de palavras agudas, ações afiadas, armações pontiagudas, enfim, flechas perigosas, mas que não encontram nenhum covarde pela frente, pois todos já bateram em retirada.

John Kennedy dizia que “coragem é manter a classe sob pressão”. Exato. Coragem nunca é testada quando se está deitado numa rede, dormindo o sono dos anjos depois de um saboroso churrasco em família, num daqueles domingos bem preguiçosos. Nada disso! A coragem genuína será testada e se mostrará nos momentos de pressão, aqueles nos quais somos ameaçados. A frase de Kennedy tem tudo a ver com a famosa afirmação: “não vem ao caso o que fizeram com você, mas o que você vai fazer com o que fizeram com você”. Cada um reage de um jeito frente a mesma pressão. Uns com classe, destemor, coragem, já outros...

Onde nos encaixamos? Vou responder por mim, e penso que se não todos, acredito que uma grande maioria anda pela mesma resposta. Já me descobri corajoso, assim como covarde. Num momento lá em cima da montanha, no outro, escondido numa caverna. Nas horas de covardia me condeno, me censuro, me envergonho. Nas horas de coragem, me encho de satisfação comigo mesmo, sinto-me recompensado, encaro. E essa dicotomia hora me alegra, hora me entristece, trazendo um misto de euforia boa com uma frustração decepcionante.

Talvez estas duas características expliquem um pouco do ânimo atual no convívio social tão complexo dos nossos dias. Gente que quer ser sempre corajosa e que, por isso mesmo, acaba caindo nas armadilhas do eu-sou-mais-eu, não-levo-desaforo-pra-casa, comigo-é-assim-bateu-levou. Enquanto no outro lado, gente que só sabe ser covarde o tempo todo e que acaba caindo em outras armadilhas, aquelas do eu-não-vou-porque-não-tenho-roupa, prefiro-me-calar-do-que-ser-ridicularizado-em-público, não-pechinchei-pra-não-parecer-que-não-tinha-dinheiro.

Tais comportamentos geram atritos, humilhações, descompassos, brigas, divisões, só trazendo prejuízos nos corações das famílias, dos amigos, das comunidades. Nessa altura vale a pena compartilharmos um pouco da sabedoria bíblica, em Provérbios 20, no versículo 3, na tradução da Bíblia Viva, encontramos um conselho precioso: “Fugir de uma briga não é vergonhoso, é honra; só os tolos fazem questão de brigar.”

Entendeu agora o título do meu texto? Covarde corajoso! Precisamos ter a coragem de sermos “covardes” nas mais variadas situações. Se nos julgarem assim, tudo bem, não importa o que falem sobre nós, importa apenas o que de fato somos. Precisamos saber lutar lutas que valham a pena. Picuinhas, invejinhas, fofoquinhas, competiçõezinhas, enfim, coisinhas que sugam todas as boas energias, que provocam mal estar, que servem apenas para mostrar aparentes valentias, não merecem nossa força, honra e coragem. Merecem sim nosso desprezo, indiferença e, se ao deixarmos tais coisas pra lá e alguns entenderem como covardia, tenha coragem, deixe que entendam!

Desde a minha juventude desenvolvi uma filosofia pra minha vida: “Dou um boi para não entrar numa briga, mas dou uma boiada para continuar fora!”. Por conta disso sei que muitas vezes já me julgaram covarde. Sem dramas. Por outro lado a graça de Cristo desenvolveu em mim coragem suficiente para encarar lutas fundamentais, lutas que vêm naqueles cálices gravados com meu nome, cálices que ninguém tomaria no meu lugar. Enfim, existem momentos de fugir, existem momentos de enfrentar, que o Eterno nos dê sabedoria para sabermos o que fazer em cada momento. No mais, coragem, Ele te ajudará tanto quando fugir, como quando enfrentar.

Edmilson Ferreira Mendes é teólogo. Atua profissionalmente há mais de 20 anos na área de Propaganda e Marketing. Voluntariamente, exerce o pastorado há mais de dez anos. Além de conferencista e preletor em vários eventos, também é escritor, autor de quatro livros: '"Adolescência Virtual", "Por que esta geração não acorda?", "Caminhos" e "Aliança".

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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