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Pesquisadores buscam vacina universal contra a gripe

Pesquisadores buscam vacina universal contra a gripe

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:30

Na infância, duas doses de vacina contra sarampo protegem uma pessoa para toda a vida. Quatro doses de vacina contra pólio faz o mesmo. Porém, as vacinas contra a gripe devem ser tomadas anualmente. Mesmo assim, elas oferecem uma proteção incompleta.

O motivo é a grande quantidade e alta velocidade de mutações sofridas pelo vírus da gripe se comparado aos outros vírus. Uma pessoa que desenvolve imunidade a um tipo do vírus não está bem protegida contra outro tipo.

Isso está se moldando como um enorme problema, à medida que o mundo se prepara para uma possível pandemia do novo tipo de gripe suína. É impossível saber quantas pessoas podem morrer antes da fabricação de uma vacina específica para esse tipo de doença.

Todavia, cientistas e fabricantes de vacinas estão trabalhando seriamente numa suposta vacina universal contra a gripe, eficaz para todos os tipos da doença. O objetivo é garantir proteção por anos, se não por toda a vida, contra todos os tipos de gripes sazonais e pandemias, tornando a inoculação desta bem parecida com a do sarampo ou poliomielite.

"A universal mudaria completamente a forma como a vacinação contra gripe seria feita", disse Sarah C. Gilbert, uma especialista em vacinas da Universidade de Oxford. "Quanto mais cedo tivermos uma vacina universal, melhor, pois poderemos parar de nos preocupar sobre como será a próxima pandemia".

Uma vacina tão completa acabaria também com as adivinhações que hoje ocorrem no início de cada ano, quando cientistas decidem quais tipos deveriam ser incluídos na vacina periódica para o próximo inverno. Se eles adivinharem errado, a vacina perde eficácia.

Ela tornaria prática a imunização contra gripe em países hoje incapazes de pagar por um esforço anual. Estima-se que a gripe sazonal contribua com uma média anual de 36.000 mortes nos Estados Unidos, e quase meio milhão em todo o mundo.

Infelizmente, uma vacina universal não estará pronta com rapidez suficiente para combater uma possível pandemia do novo tipo de gripe suína, que já atacou milhares de pessoas. A mais avançada das vacinas foi testada apenas em pequenos estudos clínicos. Provavelmente ainda são necessários vários anos de estudo para mostrar se a vacina realmente funciona.

Realmente, as vacinas universais desenvolvidas até agora não evitam totalmente a infecção, como fazem as vacinas para tipos específicos. Ao invés disso, elas limitam a severidade e disseminação da doença. Alguns peritos dizem que isso seria suficiente, mas outros têm suas dúvidas.

"Dessa forma, a universal não substituiria a vacina sazonal contra gripe", disse o Dr. Robert Belshe, diretor do centro de desenvolvimento de vacinas da Universidade de Saint Louis. "Imagino que ela seria considerada um suplemento".

Alguns especialistas dizem que doses de reforço ainda poderiam ser necessárias a cada 10 anos. No fim, não fica claro se as vacinas seriam capazes de proteger contra todos os tipos, incluindo vírus derivados de animais como a nova gripe suína.

A maior parte das vacinas universais em desenvolvimento nem mesmo tentam oferecer proteção contra a gripe tipo B. Elas focam no tipo A, que tende a causar doenças e pandemias mais graves.

Quando alguém é vacinado ou infectado, o sistema imunológico cria anticorpos que atacam principalmente uma proteína na superfície do vírus, chamada hemaglutinina. Porém, essa proteína é a parte mais mutável do vírus; assim, os anticorpos para um tipo podem não reconhecer um vírus diferente.

A vacina universal teria de estimular um ataque do sistema imunológico a uma parte do vírus da gripe que não mude de um tipo para outro.

Se isso fosse fácil, dizem os céticos, o sistema imunológico já teria desvendado o problema e as pessoas teriam proteção constante. Pesquisadores de vacinas argumentam que algumas pessoas podem ter imunidade duradoura, pelo menos por alguns anos. Uma vacina pode ensinar o sistema imunológico a fazer coisas que ele poderia não conseguir fazer por conta própria.

"Não vejo razões por que isso deva ser impossível", disse Suzanne Epstein, pesquisadora da Food and Drug Administration - agência regulamentadora do mercado de remédios e alimentos nos EUA. "Funciona muito bem em animais".

O grande problema é que a maioria das proteínas do vírus da gripe que não variam está no interior do vírus, fora do alcance dos anticorpos. Entretanto, há uma proteína interna, chamada M2, que se projeta um pouco para fora. Esse pedaço externo não é um grande alvo para os anticorpos, mas é foco principal da pesquisa da vacina universal.

"O problema é a sua necessidade de que o sistema gere uma forte reação imunológica contra essa pequena proteína, que nem mesmo está presente em abundância", disse Alan Shaw, presidente da VaxInnate, uma pequena empresa caminhando para desenvolver uma vacina universal capaz de combinar a parte externa da M2 com uma proteína bacterial estimulante do sistema imunológico.

VaxInnate, Merck e Acambis, propriedades da Sanofi-Aventis, realizaram pequenos testes de sua vacina M2 em voluntários saudáveis. Pessoas vacinadas criam, sim, anticorpos contra a M2. Porém, esses anticorpos não evitam totalmente a infecção. Serão necessários testes muito maiores para verificar se as vacinas são realmente eficazes para melhorar a doença durante um real período de gripe.

Outro problema é que a proteína M2 em vírus de gripe animais pode ser diferente daquela em vírus humanos. Isso levanta questões sobre a eficácia de uma vacina M2, digamos, contra a nova gripe suína, conhecida formalmente como H1N1.

"O novo vírus H1N1 poderia desestabilizar um pouco as coisas", disse Andrew Pekosz, professor associado de microbiologia e imunologia molecular da Universidade Johns Hopkins.

No início do ano, duas equipes de pesquisadores relataram, independentemente, a possibilidade de existir uma outra região, sem variações, do lado de fora do vírus. Seria no "cabo" da proteína hemaglutinina, em forma de pirulito, ao invés de sua cabeça, área de constante transformação.

Um dos grupos mostrou que anticorpos isolados do sangue humano, confinados nessa parte do cabo, protegeram camundongos contra muitos tipos de gripe, incluindo a gripe espanhola pandêmica de 1918 e a gripe aviária H5N1.

Entretanto, especialistas dizem que será muito difícil isolar essa parte da proteína do vírus para usá-la numa vacina, ou produzi-la utilizando engenharia genética.

"Meu primeiro pensamento foi, 'Oh, você tem que fazer essa vacina'", disse o Dr. Hildegund C.J. Ertl, pesquisador de vacina universal do Instituto Wistar, em Filadélfia, que não estava envolvido na descoberta. "Mas então, quando examinei a sequência, não era nada simples".

Uma alternativa seria usar os próprios anticorpos como remédio, embora seja caro de se produzir e leve muito tempo para ser inoculado pelos pacientes.

Sendo difícil encontrar regiões constantes do lado de fora do vírus, alguns esforços miram em proteínas imutáveis no interior dos mesmos, como a nucleoproteína. Os anticorpos não conseguem chegar a essas proteínas para evitar uma infecção. Dessa forma, a ideia é estimular outros soldados do sistema imunológico, chamados de células T, a matar rapidamente as células infectadas antes que elas possam criar novos vírus. Isso limitaria a gravidade da doença.

Epstein, da FDA, disse que a vacina baseada numa nucleoproteína de um vírus H1N1 humano era capaz de proteger animais de uma dose letal de gripe aviária, H5N1, o vírus que causou temores pandêmicos alguns anos atrás. A Universidade de Oxford testou uma vacina da célula T em 28 adultos saudáveis e descobriu que ela realmente aumentava as reações de células T.

No fim, os melhores resultados podem vir a partir de uma combinação de técnicas. Dynavax, uma companhia de biotecnologia da Califórnia, espera iniciar, no próximo ano, estudos clínicos com uma vacina projetada para incitar anticorpos de M2 e células T contra a nucleoproteína.

Epstein disse que as expectativas para uma vacina universal devem ser realistas. "A intenção não é impedir totalmente a infecção", explicou. "Mas o que ela pode fazer é reduzir enormemente a doença, a disseminação e os sintomas".

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