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Alergia a baratas é principal causa da asma, diz pesquisador

Alergia a baratas é principal causa da asma, diz pesquisador

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:30

A asma é a doença crônica mais comum na infância e atinge pessoas carentes de maneira desproporcional. Até um terço das crianças que vivem em abrigos públicos nas cidades tem asma alérgica, na qual um alergênico específico deflagra uma série de eventos que causam inflamação, constrição das vias aéreas e dispnéia.

Agora, usando um modelo experimental que exigiu o abandono das condições imaculadas do laboratório para a caótica vida real, uma equipe de cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Boston descobriu qual é esse alergênico. "Para crianças que vivem na cidade," disse o pesquisador líder, o doutor Daniel G. Remick, professor de patologia, "a principal causa da asma não são os ácaros, a caspa de cães, nem o pólen exterior, mas sim alergia a baratas."

Remick e seus colegas (então na Universidade de Michigan) publicaram seu primeiro artigo em 2002, após desenvolverem seu modelo ao longo de vários anos. Seu laboratório ficava em Detroit, onde, como em muitas outras cidades, os abrigos públicos sofriam com infestações de pragas. A equipe fez visitas às residências com um antigo instrumento de coleta de dados: o aspirador.

"Coletamos a poeira das casas - grandes amontoados de poeira - acrescentamos água, deixamos que se misturassem durante a noite, e centrifugamos os detritos, até obtermos um extrato," disse Remick, hoje com 56 anos. O extrato estava cheio de proteínas da Blattella germanica - a barata comum - cujo exoesqueleto e fezes são lançados no ar após a sua morte. De volta ao laboratório, camundongos foram expostos às partículas da poeira acumulada. Após receberem a injeção, seus sistemas imunológicos se prepararam: os sistemas de resposta celular foram postos em alerta.

Ao serem expostos às mesmas partículas pela segunda vez através da inalação, os sistemas em alerta foram ao ataque. Os camundongos que antes respiravam sem problemas passaram a ter dificuldade para expirar e sua respiração desacelerou - o equivalente em roedores à dispnéia. Eles estavam tendo ataques de asma.

Uma análise de seus pulmões mostrou que as vias aéreas estavam entupidas com leucócitos, a maioria do tipo eosinófilo, que causa secreção de muco, danos no tecido e mudanças na capacidade de contração do músculo. Os camundongos do grupo de controle, expostos aos ácaros ao invés da proteína da barata, não sofreram nenhumas das alterações respiratórias ou patológicas. A equipe obteve os mesmos resultados em vários locais; diferentes acúmulos de poeira, mas a mesma reação alérgica.

"Estamos muito entusiasmados," Remick disse em entrevista, "porque essa é a primeira vez que alguém de fato coletou algo de lares onde crianças têm asma." Pesquisadores não diretamente envolvidos nos estudos disseram também estarem entusiasmados. "É algo inteligente," disse o doutor Lester Kobzik, professor de patologia da Escola Médica de Harvard. "Ele coletou o material nojento ao qual as pessoas de fato são alérgicas".

"Você não pode ligar para seu fornecedor químico de reagentes científicos e dizer: quero 2kg de exatamente a mesma poeira caseira," continuou Kobzik. "Remick tinha uma grande quantidade de amostras, por isso conseguiu realizar vários anos de experimentação e estudo cuidadoso." O doutor Peter A. Ward, professor de patologia dos Serviços de Saúde da Universidade de Michigan, que recrutou Remick como residente há quase 25 anos, disse que o trabalho era "provavelmente a simulação em modelo animal mais próxima do que é observado na asma humana."

Grande parte das pesquisas de asma em laboratório ainda utiliza proteínas criadas geneticamente para induzir os sintomas nos camundongos; muitas vezes, as proteínas são tiradas de claras de ovo. Isso é cientificamente satisfatório, mas menos relevante para a vida real. A clara de ovo (a que humanos raramente são alérgicos) tem pouco em comum com a poeira urbana que as crianças estão mais propensas a encontrar e inalar.

Usando o mesmo modelo de camundongos, Remick agora estuda os efeitos de vários tratamentos para a asma, incluindo drogas antiinflamatórias chamadas de inibidores do fator de necrose tumoral, como Remicade e Enbrel. As drogas, já utilizadas no tratamento de artrite reumatóide e inflamação intestinal, parecem sabotar um composto imunológico crucial que atrai eosinófilos. "O bloqueio do fator de necrose tumoral em um modelo de camundongos melhora a asma", Remick disse. "É bem inteligente."

E uma estratégia mais exótica também está sendo investigada. Há alguns anos, quando um colega de Remick, Jiyoun Kim, apresentou os resultados do modelo de camundongos em um congresso profissional na Coréia, uma pessoa da platéia perguntou se ele havia ouvido falar de um tradicional tratamento de ervas chinês. Ele levou amostras das ervas de volta aos Estados Unidos e, em camundongos, elas se mostraram eficazes no bloqueio à eotaxina, componente que causa reações asmáticas.

As ervas chinesas têm o aroma e romantismo de uma solução fácil, sem os rigores de testes federais de drogas. Mas Remick alerta que é preciso ter cautela. "O poder e problema dos medicamentos chineses à base de ervas," ele disse. "É que eles têm mais de um ingrediente ativo - eles têm dezenas. Sabemos que eles bloqueiam a eotaxina, mas não sabemos o que mais eles bloqueiam, ou o que neles, de fato, causa a melhora.

A própria doença também é um complicador para o tratamento: a asma tem muitos mecanismos. "Devem existir 50 processos inflamatórios diferentes," Remick continuou. "Ainda estamos tentando definir com precisão qual parte das ervas bloqueia qual parte da resposta inflamatória." Mesmo assim, pais esperançosos, atraídos por tratamentos herbais, já causaram alguns momentos de angústia aos pesquisadores.

"Ontem," Remick disse, "fui contatado por alguém cuja colega de trabalho queria saber se ela deveria usar ervas chinesas para tratar a asma da filha. Imediatamente respondi que não. Não é uma questão de medicina oriental versus medicina ocidental. Há outras drogas para asma que estão melhor definidas no momento. As ervas não deveriam estar na linha de frente." Segundo ele, "se meu filho tivesse asma, o levaria ao pediatra".

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