Liderança e integridade de coração

Liderança e integridade de coração

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:32

"Nada do que tocamos é eterno"

Esta é uma frase de Charles Kerman que nos ajuda quando tentamos responder a seguinte pergunta: quais são os critérios com os quais Jesus julga a minha vida?

Frequentemente julgamos a vida alheia a partir de valores mais externos, contábeis e visíveis, do que pelo que se passa no coração. E assim nos encantamos com homens, histórias, livros e lideranças que não encantam a Deus.

A presente sociedade leva-nos a crer que somos aquilo que aparentamos e não são raras as vezes que somos julgados pelos nossos títulos, realizações, influência e tantas outras credenciais que tentam plasticamente definir nossa aparência pública. Entretanto, no Reino de Deus, pregado por Jesus, estas roupagens não representam a nossa identidade, quem de fato somos.

Possuimos uma tendência natural para nos escondermos. Somos, portanto, seres construtores de máscaras. Construímos máscaras com o mesmo intuito que o fazem os povos tribais em rituais xamânicos: para o engano do próximo e manipulação social. Creio que as máscaras que somos tentados a construir possuem, em um primeiro momento, a intenção de apresentar uma imagem que julgamos ideal para os de longe. Comumente esta imagem não representa a verdade do nosso ser, mas sim uma idéia utilitária que tentamos exportar. Se temos sucesso na construção de máscaras que vendam esta imagem aos de longe, somos tentados a construir máscaras mais elaboradas, refinadas, que possam enganar também os de perto. É por isto que podemos nos surpreender com alguém bem perto de nós, de nosso círculo de amizade e relacionamento, que repentinamente se desvenda como portador de valores e práticas antagônicas com a imagem que dele tínhamos. É que não o conhecíamos. Olhávamos para ele, mas enxergávamos sua máscara. Mas não paramos aí.

Como seres construtores de máscaras, ao chegarmos no ponto do engano coletivo aos de longe e perto nos propomos a uma nova empreitada, ainda mais desafiadora: construir máscaras que enganem não apenas o outro, mas a nós mesmos. Chamo tais máscaras de máscaras do auto-engano. Aconselhava um cristão que se surpreendeu consigo mesmo ao trair a confiança de um líder que amava e admirava. Em meio a lágrimas exclamou: como pude fazer isto? Então pensei: quantas vezes esta pergunta nos persegue? O auto-engano não é apenas possível, mas infelizmente frequente. Pode levar homens e mulheres e jamais confrontarem suas mazelas e pecados levando-os a viverem como se tudo estive bem.

A construção de máscaras de engano e auto-engano é uma prática pecaminosa que nos leva para longe de uma conversa franca e necessária sobre a nossa vida, fugindo assim de um dos assuntos mais controvertidos e evitados pelo homem desde sua queda: a verdade.

No Reino da luz a verdade é o fundamento para qualquer avaliação. Não por acaso a Palavra nos diz que ela nos libertará. A ausência da verdade, por outro lado, nos mantém cativos às mesmas masmorras psíquicas, volitivas e comportamentais de sempre. E o auto-engano, quando a psiquê humana mente para ela mesma tentando racionalizar o pecado e a fraqueza, torna-se uma das fortes oposições à verdade.

O elemento principal com o qual Jesus nos avalia é bem menos visível, menos contábil e certamente menos observado por aqueles que nos cercam, pois Ele nos vê no íntimo, sem máscaras, manipulações ou enganos. A Palavra usa expressões como "coração puro 1 ", "de todo o teu coração 2 " , "integridade do coração 3 " , e "santidade ao Senhor 4 "  para nos fazer entender que somos mais avaliados por Cristo pelas coisas do coração e não pela nossa roupagem. Entenda claramente algo: Jesus conhece o secreto da sua vida. Ele certamente não se impressiona pelas grandes construções que levantou, realizações aplaudidas por multidões ou teses defendidas debaixo dos holofotes. O Carpinteiro olha direto para o seu coração e vasculha a sua alma. E é justamente neste campo que você será encontrado fiel, ou não.

Em 1 Samuel 16, o profeta buscava o ungido do Senhor entre os filhos de Jessé. Antes de indicar Davi, que viria a ser rei sobre Israel, o Senhor diz a Samuel: "... Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque eu o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração".

William Hersey Davis, tentando fazer-nos diferenciar entre a ilusão do palco e a realidade da vida, compara caráter e reputação quando diz:

"As circunstâncias nas quais você vive determinam sua reputação.

A verdade na qual você crê determina o seu caráter.

Reputação é o que pensam a seu respeito.

Caráter é quem você é.

Reputação é a sua fotografia.

Caráter é a sua face.

A reputação fará de você rico ou pobre.

O caráter fará de você feliz ou infeliz.

Reputação é o que os homens dizem a seu respeito no dia do seu funeral.

Caráter é o que os anjos falam de você perante o trono de Deus 5 ".

É certo que não podemos purificar nosso próprio coração. Dentre tantas verdades marcantes do Cristianismo uma delas é esta: nós dependemos de Deus. E dependemos dEle para crer, para segui-lo e para nos parecermos mais e mais com o Filho. Assim creio que o objetivo de Cristo é tão somente levar-nos a orar como o salmista: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável 6 ".

1 Salmo 51:10

2 Mateus 22:37

3 Salmo 78:72

4 Êxodo 29:6

5 John Maxwell. Becoming a Person of Influence: How to Positively Impact the Lives of Others. Paperback, 2002.

6 Salmo 51:10

Ronaldo Lidório é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles "Com a mão no arado", "Unafraid of the sacred forest" e "Restaurando o ardor missionário".

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