"Evangelhation": A Marcha

"Evangelhation": A Marcha

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:23

Marcha é um daqueles termos abundantes da língua portuguesa que permite delirar o poeta.

Etimologicamente marcha pode se tratar tanto da forma como a pessoa se locomove quanto para denotar um exercício físico; pode significar uma caminhada quanto uma música; pode ser atlética ou automotiva; nupcial ou fúnebre; um jogo ou um procedimento militar. Isso sem contar a MarCha - escreve assim mesmo - que significa Movimento Marista de Jovens (''Mar'' de Maria'' e ''Cha'' de Champagnat).

Como se não bastasse, novas marchas surgiram. Por exemplo: a Marcha Mundial das Mulheres é uma ação do movimento feminista internacional de luta contra a pobreza e a violência sexista; a Marcha da Maconha é um movimento social que luta pela legalização da maconha no Brasil; a Marcha Mundial pela Paz e pela Não-Violência, a Marcha dos Usuários pela Reforma Psiquiátrica, a Marcha dos Prefeitos a Brasília, a Marcha Nacional contra a Homofobia, a Marcha pela Defesa dos Animais, a Marcha Nacional pela Reforma Agrária além da Juventude em Marchacontra a Violência, entre outras marchas já politicamente engrenadas.

É tanta marcha que pode comprometer o câmbio! Uma, no entanto, mereceu minha atenção: a Marcha Prá Jesus.

A primeira MPJ aconteceu em 1987, na cidade de Londres (Inglaterra), pelo pastor Roger Forster. No início, a intenção era tirar a igreja das quatro paredes e mostrar que ela estava viva e presente na sociedade. Em 1989, mais de 45 localidades marcharam juntas em todo o Reino Unido, inclusive em Belfast (capital da Irlanda), onde 6 mil católicos e protestantes se reuniram, num visível sinal de união. No ano de 1993 o Brasil realizou a sua primeira edição do evento.

Em 2010, cerca de 5 milhões de pessoas participaram do evento, segundo estimativa da organização do evento. Mais de 600 caravanas de vários lugares do país chegaram a São Paulo para a festança gospel. Ao todo, 34 bandas e 14 trios elétricos animaram o público.

A despeito do objetivo inicial, a MPJ atual tem se revelado um megaevento de finalidades, no mínimo, questionáveis. Uma galera que desfila na avenida, mas que possivelmente ignora o caminho do Calvário. Preferem empunhar a bandeira do gueto religioso ao invés de proclamar a cruz de Cristo. Levam um Jesus mais no peito do que no coração. A via dolorosa deu lugar à ocupação de amplos logradouros públicos. Apóstolos denunciados judicialmente chamam mais a atenção que o ''sol da justiça''. Se a gente é o que fala, eu prefiro não ouvir o depoimento dos romeiros da fé. Se a turma é o que dança, talvez fosse necessário tomar umas aulas de axé baiano. Sair das quatro paredes não foi o bastante, a moda agora é saltitar atrás dos trios elétricos - e olha que coreografia não vai faltar se lançarem o ''O Evangelhation tion tion, Evangelhation''...

Sinceramente, eu não saberia dizer se isso é uma marcha prá Jesus ou uma mancha no evangelho? Evidentemente há muito trigo misturado no meio do joio. Difícil é identificá-lo. Afinal, tá tudo ''mixturado''.

A PARADA

Uma batida policial no bar Stonewall, frequentado por gays e lésbicas em Nova York, em 1969, deu o pontapé para a primeira parada do orgulho LGBT do mundo. A prisão e o espancamento de várias pessoas levou 2.000 manifestantes às ruas da cidade naquele ano. Desde então, o ''28 de junho'' se tornou o dia oficial do orgulho gay. As manifestações no bairro de Greenwich Village, na ilha de Manhattan, deram início a um movimento pelos direitos civis dos cidadãos homossexuais que conseguiu vários avanços nas últimas quatro décadas. Hoje em dia, praticamente todos os países europeus e vários outros das Américas possuem suas paradas de orgulho gay. O Brasil é sede da maior festa do gênero desde 2007.

A Parada do Orgulho Gay - festa que este ano durou cerca de 6 horas - reuniu aproximadamente 3,5 milhões de pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo, segundo estimativas da organização.

Curioso observar que para garantir uma festa segura, o policiamento foi reforçado e a Prefeitura de São Paulo distribuiu 1,5 milhão de preservativos. Ingenuidade minha qualquer questionamento acerca do destino do dinheiro público e especialmente sobre a publicidade e estímulo à cultura da diversidade sexual e da pluralidade de parceiros.

E considerando que o Projeto de Lei 3234/08 institui o Dia Nacional da Marcha para Jesus, não seria igualmente correto solicitar que o Município de São Paulo distribuísse ao menos uns dois milhões de exemplares do Novo Testamento aos participantes desse evento? Se o preservativo combate as doenças sexualmente transmissíveis (DST), o texto sagrado condena as ''mazelas espiritualmente herdadas'' (MEH). Se a camisinha evita a AIDS, a Bíblia previne o espírito. Se o poder público pode financiar um bacanal a céu aberto também deveria promover a saúde dos seus cidadãos. Se prevenção custa menos do que intervenção, alguém precisa lembrar o Ministério da Saúde que coerência faz bem à saúde pública!

Brasil - um país de todos! E de todas as paradas. O Brasil para no e pro carnaval; para diante da seleção canarinho, e reza pelos ''anões do Dunga'' em busca do hexa-sonho o qual faz a Marginal Tietê virar deserto de pinche; para junto com o artilheiro e sua paradinha para enganar o goleiro; e, para encima da faixa, se não der para furar o sinal ''alaranjado'' (fração de tempo entre o sinal amarelo e o vermelho). Bom, se forem somados os finais de semana, feriados, recessos, emendas e outras terminologias brazucas, o motor verde- amarelo talvez nem consiga engrenar a segunda marcha. Talvez um dia o país pegue no tranco.

A MEIA VOLTA

Para quem não se empolga com a Marcha e detesta a Parada, talvez precise dar meia volta.

Meia volta, volver!

Meia volta, refletir!

Meia volta, caminhar!

Para quem não sente orgulho gay e não marcha prá Jesus, a melhor opção não é ficar parado vendo a charanga passar. Ao invés de marchar PRÁ Jesus, ande COM Jesus. Se a parada é colorida demais e a marcha badalada demais, caminhe junto ao Sumo Pastor o qual guia-nos ''mansamente a águas tranqüilas''.

Afinal, a massa marcha prá quê? Prá quem? E por quem?

A massa não define marcha! O importante, diriam, é marchar.

De marcha, porém, quem entende são os pingüins imperadores. Na Antártida, anualmente no mês de março, centenas de pingüins fazem uma jornada de milhares de milhas de distância pelo continente a pé, enfrentando animais ferozes, temperaturas frias, ventos congelantes, através das águas profundas e traiçoeiras. Tudo para encontrar o amor verdadeiro e realizar seu ritual de acasalamento, o qual prevê a inversão de papéis entre pingüins machos e fêmeas, onde o casal se separa após um breve tempo suficiente para a fecundação. A fêmea deixa o ovo para ser chocado pelo macho, enquanto retorna para o mar em busca de alimento.

Talvez minha compreensão esteja em marcha lenta. Mas tenho a impressão que a Marcha tá tão devagar do ponto de vista espiritual que mais parece uma Parada, e a Parada tá tão animada sob o bandeirão multicolorido que bem merecia o título de Marcha...

Neir Moreira   é teólogo, pós-graduado em docência do Ensino Religioso pela Faculdade Batista, psicólogo formado pela UFPR e pós-graduando em Educação. www.neirmoreira.com

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