Jó e o irmão mais velho

Jó e o irmão mais velho

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:32

"Bem sei que tudo podes

E que nenhum de teus planos pode ser mudado"

"Eu te conhecia só de ouvir falar

mas agora os meus olhos te vêem"

Essas palavras que cantamos no belo cântico do Pimenta são de Jó (cap. 42:2-5). Fico pensando no quanto ele passou para poder chegar a esse ponto, a essa experiência. Mesmo assim, diz-nos Jó, ele acha que tudo valeu a pena - sua vida depois do sofrimento foi melhor, mais bem-aventurada do que antes.

Olhando para Jó mais de perto, tenho notado algumas semelhanças entre o livro dele e o que seria uma continuação da parábola do Filho Pródigo (Lc 15). Jó era, pelo que me parece, alguém que aprendeu muito bem, talvez melhor que todos os demais, a temer a Deus. Era um justo, que procurava com todas as forças corresponder às expectativas de Deus. Era, talvez, o melhor exemplo possível de santidade dentro do Antigo Testamento. Por isso, vejo semelhanças com o irmão mais velho do filho pródigo:

Jó chegava a oferecer sacrifícios por seus filhos adultos, para a eventualidade de eles terem se excedido e transgredido alguma lei do Deus Eterno. Era absolutamente irrepreensível nas exigências da lei, indo até além do exigido. Preocupava-se com possíveis erros de seus filhos - isso parece indicar que ele tinha temor, medo mesmo, de Deus; e isso quer dizer que ele, tal qual o irmão mais velho do filho pródigo, não conhecia muito sobre a graça, o amor do Pai a quem servia.

A parábola de Jesus nos conta como o filho pródigo aprendeu sobre o amor de seu pai: afastando-se dele e sofrendo as deprimentes conseqüências até cair em si. Mas a parábola não revela de que modo o irmão mais velho poderia aprender essa mesma lição: confiar no amor incondicional de seu pai. Até então, ele confiava na justiça de suas obras para ser "amado" pelo Pai (tal qual Jó, a julgar por seus protestos); e isso não lhe tinha ensinado nada sobre graça ou misericórdia.

Tenho a impressão de que provavelmente foi exatamente esse o papel do sofrimento na vida de Jó: ensinar que aquele Deus justo era também misericordioso e amoroso. Porque essa equação tem de privilegiar o sofrimento eu não sei, mas pelo menos isso traz bastante sentido para o sofrimento, seja de Jó, seja de todos aqueles que sofrem aparentemente não "por justa causa" (como seria o caso do filho pródigo). De alguma forma que não consigo compreender, o sofrimento "injusto" faz-nos ter uma nova e mais verdadeira experiência de Deus, como o Pai das misericórdias e Deus das consolações. Talvez Jesus tenha passado por isso na ressurreição; Paulo sofreu tantas vezes, e vivia animado pelo amor do Senhor.

Portanto, meu irmão e irmã, se você está sofrendo sem nenhuma causa muito clara, anime-se; talvez você tenha conhecido Deus como alguém de quem se deve ter medo, e Ele está a caminho de lhe fazer vivenciar um Deus mais verdadeiro, alguém a quem você consiga amar. Talvez você ainda tenha muito legalismo e "justiça" arraigados em seu coração, e o que Deus quer - inclusive para sua salvação - é misericórdia. E acredite - como Jó testemunhou - isso vale a pena. Para você, essa correção de imagem de Deus é melhor do que não sofrer e continuar crendo num Deus temerário (que deve ser uma projeção de outra coisa qualquer).

Afinal, tal qual o irmão mais velho de Lc 15, você já está servindo a esse deus há tanto tempo e ainda não se permitiu nem sequer churrasquear um cabrito com os amigos. Se sofrimento é o nome do ingresso para a festa da graça do Pai, para poder comer um bezerro cevado, beber os melhores vinhos e curtir as melhores músicas com o Pai que nos ama, sofra logo o que for preciso, porque você está perdendo bem mais do que imagina. Estamos falando de ver a Deus com nossos olhos; o que "ouvimos falar" provavelmente não bate muito com a realidade de Deus.

  Karl Heinz Kepler é pastor, psicólogo clínico, editor de revista e atual presidente do CPPC (Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos - www.cppc.org.br)

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