Quando nos tornamos "foras da lei"?

Quando nos tornamos "foras da lei"?

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:31

De acordo com a mentalidade secular, especialmente aquela do famoso "jeitinho brasileiro", em que muitos querem levar vantagem sobre outros custe o que custar, para se tornar um "fora da lei" o indivíduo deve ter cometido um grave crime. Desses como: roubar, matar, seqüestrar, etc. Isso faz com que as pessoas acabem permitindo que "pequenas infrações" tomem lugar em suas vidas. Situações que são consideradas, às vezes, irrelevantes, por causa do contexto sociológico onde valores e princípios estão cada vez mais adoecidos. Por exemplo, obter sem autorização a caneta de alguém para muitos não tem o mesmo significado infrator que assaltar um banco. Contudo, se analisarmos sinceramente as duas ocorrências veremos que a diferença se dá somente nos produtos obtidos, pois as vias de aquisição dos mesmos são originalmente ilícitas. Sendo assim, os praticantes de tais atos são igualmente "foras da lei". Concorde você ou não, qualquer ser humano pode facilmente se tornar um "fora da lei". E para mostrar que muitas vezes a margem para se cometer uma infração é quase imperceptível, recorreremos a textos da Palavra de Deus.

Em Mateus, no capítulo cinco, a partir do verso dezessete, lemos o que foi dito pelo próprio Cristo: "... não vim para revogar [Lei], vim para cumprir... Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus... Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus... Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás; e quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo , estará sujeito ao inferno de fogo... Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela" . [grifo do autor]

No referido episódio, não foi a toa que Jesus se utilizou da imagem de escribas e fariseus como referência para discipular o povo. Na verdade, eles eram os responsáveis pelo ensinamento da Palavra, e sua sociedade os via como aqueles que não apenas eram capazes de ensinar, mas também de cumprir corretamente a Lei. No imaginário do povo, jamais um religioso seria um fora da lei.  Por causa disso, Jesus revela e confronta a má e limitada interpretação da lei, possivelmente voluntária, por parte dos religiosos. Enquanto tais homens relacionavam o cumprimento da Lei somente com atitudes superficiais e objetivas, Jesus conduzia a atenção do povo para uma compreensão mais ampla, que contemplava também aspectos internos e subjetivos. Isto é, para alguns, matar era uma questão de tirar a vida de alguém, mas para Jesus não era necessário chegar a tal ponto. Bastava um insulto como: tolo (cabeça vazia em aramaico) para configurar infração. Enquanto para alguns, adultério era ter relação sexual com alguém que não fosse seu cônjuge, para Jesus, um simples olhar com intenção impura já fazia do indivíduo um adúltero. O que dizer disso? Quem interpretou corretamente a Lei? A resposta é simples. Os religiosos interpretavam os ensinamentos conforme melhor lhes era conveniente, pois eram homens pecadores, cheios de vaidade, auto-suficiência, soberba e tantas outras mazelas que qualquer indivíduo possa ter experimentado. Por isso, quando limitavam a abrangência da Lei, o faziam para atender suas expectativas tendenciosas. Sendo assim, o máximo que conseguiam era produzir comportamentos sociais hipócritas e atitudes superficiais.  No caso de Jesus não havia nenhuma tendência ao engano, pois Ele era santo, humilde, obediente, sem pecado algum, e totalmente dependente do Pai (o Criador). Nele não existia nada para manter em oculto diante da sociedade. Por causa disso, Jesus não via a Lei somente como formas de regular os homens e suas ações; e de padronização de rituais. No entanto, para Ele a Lei era uma maneira do homem expressar seu relacionamento com Deus, consigo mesmo e com o próximo. Ou seja, através de uma transformação interior total, pela Palavra, o homem poderá condicionar melhor seus relacionamentos e suas ações externas. Em outras palavras, o que aprendemos com Jesus é que, devido a certas atitudes, podemos até passar uma imagem de homens e mulheres extremamente corretos perante a sociedade. Contudo, nosso homem interior pode estar desalinhado com os padrões estabelecidos pelo reino de Deus. Sendo assim, seremos considerados "foras da lei". Porque está escrito: "Pois qualquer que guardar toda a lei, mas tropeçar em um só ponto, se torna culpado de todos... falai de tal maneira e de tal maneira procedei...". (Tiago 2.10,12a)

Jean Carlos é pastor, cursou seminário teológico; professor e intérprete da língua Inglesa - graduado em Letras (UFMG); colunista da Revista Cristã. Casado com Katy Bastos com quem tem um casal de filhos.

Contato: jean.carlos@lagoinha.com  

*Os artigos assinados expressam a opinião de seus autores e são de responsabilidade dos mesmos.  

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