A Escola Dominical por dentro

A Escola Dominical por dentro

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:24

Como todos sabemos a Escola Dominical não teve suas raízes fincadas em estacas religiosas. É certo que, seu fundador, Robert Raikes (1735-1811) da cidade de Gloucester Inglaterra, teve, ao iniciá-la, as mais puras e piedosas intenções, mas sua consecução - o que é pouco sabido - foi apoiada e financiada pelos impiedosos senhores das fábricas e por capatazes que sentiam grandemente perturbados pelas crianças maltrapilhas e barulhentas que perturbavam o ''merecido'' descanso dos ''yuppies'' da nova e maravilhosa recém- criada sociedade industrial. A Escola Dominical servia-lhes de um instrumento para o que, poderíamos chamar hoje, de varredura dos estratos da desordem social.

O que talvez seja novidade é que, esses mesmos maltrapilhos, sustentavam o capital ondulante e sempre crescente da Inglaterra dos séc. XVIII e XIX, trabalhando dez, e até doze horas por dia, enquanto os capatazes ensinavam essas mesmas crianças a cantarem: ''Oh pensai nesse lar lá do céu'', enquanto os novos ricos pensavam ''no lar aqui da terra''. Daí, mais tarde, Eugels/Marx gritarem que a religião ''é o ópio do povo'' (e não era?).

Nessa época três forças predominavam: O pai (a família), o sargento (exército) e o capataz (a fábrica). A Escola dominical (originalmente não-religiosa) transferiu para a igreja essas crianças, criando uma nova potestade: o clérigo (igreja). Esses sistemas beneficiaram os ricos e a apaziguaram a ''vida das cidades inglesas do séc. XVIII, XIX. O roubo diminuiu, a prostituição infanto - juvenil foi praticamente debelada, o que proporcionou - pelo viés da Escola Dominical - grande progresso social e econômico financiado pelo 'status quo''. No início da Escola Dominical crianças nobres dela não participavam. Elas tinham seus próprios preceptores. Não faziam parte dos ''perturbadores da ordem''.

De alguma forma a Escola Dominical serviu como vassalo inocente aos interesses do capital. Essas Escolas Paroquiais (eram assim chamadas) funcionavam como uma FEBEM de fim de semana.

Nessa articulação as Escolas Paroquiais atendiam seus interesses (o de catequizar essas crianças e pré-adolescentes) e o do capital (manter essas crianças sob a disciplina e vigilância) o que ainda o exército não poderia oferecer as elas. As Escolas Paroquiais ensinavam às crianças a leitura (das escrituras) e proporcionavam noção de higiene, de sexualidade, além de promoverem valores éticos e morais. A igreja servia (nem sempre conscientemente) ao capital como uma espécie de bastião e garantidor da nova ordem da sociedade do fim do séc. XVIII e a do começo do séc. XIX. Com isso não estou a fazer apologia ou a querer a dilapidação da nossa querida Escola Dominical e, sim, levantar pontos criticáveis da nossa história para que não sejamos tão inocentes e românticos ao tratarmos dos problemas modernos da Escola Dominical; e nem posso negar os enormes benefícios que ela trouxe à sociedade industrial e de como ela beneficiou à pedagogia da educação infantil. Métodos hoje tão conhecidos por todos os que militam na área do saber.

Talvez se se perguntasse onde estava o pai (o poder mais próximo de seus filhos), a resposta seria: Certamente em uma taberna, esquecendo-se da dores do árduo trabalho da semana, ou então, mantendo em dia e atualizada a sua vida poligâmica. Era um contexto ainda muito influenciado pela vida medieval, mas com já ''sotaque'' industrial: De fato, era um estilo de vida em transformação, mas ainda não definido.

Cabe-nos, então, perguntar: Manter a Escola Dominical como está garante interesses particulares? Não estamos em muito, criando um substituto perigoso para os pais desertores e famílias desestruturadas? Não estamos simplesmente dando um alvará a pais e mães que anseiam cada vez mais bens materiais em detrimento da estabilidade emocional e espiritual de nossos filhos? Não estamos querendo manter uma tradição religiosa ofegante, só por não querermos nos aventurar ao novo?

A história é a senhora da razão. Faz-se mister que avaliemos, a partir de sua origem, a quê e para quê interesses a Escola Dominical hoje serve.

Quem tem cérebro pense... 

Rev. Cícero Brasil Ferraz é psicanalista, formado em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pastor da Igreja Presbieriana de Vila Maria, em São Paulo (SP)

e-mail: ipvilamaria@terra.com.br

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