A vida do Chaves - Um texto escrito sem querer querendo

O que teria feito o Brasil ficar de luto por um astro, que embora reconhecidamente bom no que fez, estava longe do auge da carreira há mais de 30 anos?

Fonte: Eu Escolhi EsperarAtualizado: quarta-feira, 10 de dezembro de 2014 12:24
Chaves
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ChavesA morte de Roberto Bolaños deixou uma ferida aberta em milhares de fãs no Brasil. Jovens e adultos, velhos e crianças, tiveram a nítida impressão de estarem se despedindo de um amigo. O comediante mexicano, que fez história com seus personagens morreu aos 85 anos no último dia 28 de novembro, deixou um legado de genialidade, aliada a uma simplicidade em lidar com temas ainda tão contemporâneos.

O que teria feito o Brasil ficar de luto por um astro, que embora reconhecidamente bom no que fez, estava longe do auge da carreira há mais de 30 anos? Qual teria sido o maior segredo de fazer do seu personagem e de seus coparticipantes, um sucesso de público após algumas gerações? É difícil fechar questão. Apontar um ou outro fator como determinante para que os roteiros de Bolaños se tornassem um sucesso mundial, é restringir o trabalho digno dos artistas, mas quero falar de alguns ao menos.

Um dos motivos que considero relevante para o sucesso de Chaves e Chapolin Colorado (seus principais personagens), foi o excelente trabalho de dublagem, que contou com uma equipe bastante competente, além de um time formado por craques responsáveis por imortalizar frases em português que vinham do espanhol. Depois do que se vê o que se ouve é o que mais marca e influencia um público em relação a alguma atração televisiva.

Um exemplo bem claro disso foi quando os atores responsáveis por dublarem a família Simpson nos Estados Unidos entraram em greve. Eles queriam aumentar a participação nos produtos de publicidade dos Simpsons, além de um considerável aumento de salário. A Fox, canal que exibe e tem o direito dos personagens, não pensou duas vezes: mandou o elenco embora e contratou outros. O resultado? Parte da audiência americana, representada por um pequeno grupo de pessoas, fez piquete em frente ao prédio da produtora “exigindo” que a emissora recontratasse os antigos dubladores, pois não havia se identificado com os substitutos. A emissora voltou atrás na decisão e re-contratou os profissionais, que possuem um dos salários mais altos em sua categoria. E por falar nisso: existe um personagem em Os Simpsons que é uma homenagem a Roberto, chamado Pedro Chespirito. Ele vive vestido de abelha e diz palavras em espanhol.

Marcelo Gastaldi (Chaves/Chapolin), Carlos Seidl (Seu Madruga), Nelson Machado (Quico), Sandra Mara Azevedo/Cecília Lemes (Chiquinha), Mario Vilela (Seu Barriga/Nhonho), Potiguara Lopes (Professor Girafales), Helena Samara (Bruxa do 71) foram, entre outros, responsáveis por criarem uma memória sonora e afetiva na alma de quem se identificava com a ingenuidade do personagem apaixonado por “sanduíche de presunto” (Chaves) ou mesmo tomava “pílulas de nanicolina” Chapolin).

Além desta simplicidade em torno de temas tão corriqueiros e peculiares, a atração parece que eternizava no público uma fase das quais todos sentem saudades: a infância. E mesmo que nem todo mundo tenha morado/dormido em um barril (existe um mistério na série sobre este evento), a busca por um amigo para brincar, um vizinho que tem problemas para pagar suas dívidas, as paixões insinuadas entre pessoas mais velhas e uma vizinha que parece ter uma “legião o mal” dentro da sua residência, são elementos que não estão fora da realidade de ninguém, especialmente em um país como o Brasil, que parece achar um espelho mais fiel na situação de uma vila (ou um cortiço se você preferir) a outro cenário mais contrastante.

Roberto Bolaños é um artista latino que entregou ao público uma opção de diversão tão profunda e etérea, que mesmo com uma produção longe dos estereótipos mais atraentes da TV, conseguiu se manter em voga por mais de três décadas, sem que fosse dela exigida, melhorias, reformas ou críticas mais fortes, uma prova que, a ‘eternidade’ de uma obra está mais vinculada à identificação do público do que propriamente a todos os outros fatores importantes para que ela seja inesquecível e convenhamos: pouca coisa é.

Sem abordar temas como política, religião ou mesmo ousar para qualquer outro mote de debate, os personagens de Bolaños estão aí para o deleite de seus fãs, renovando seu séquito de seguidores, geração após geração Ainda aguardamos novos herois do humor com a categoria deste mexicano que foi e ainda é marcante na vida de muitas pessoas.


- Daniel Junior

 

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