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Ajuda descoordenada impede que Haiti se recupere, dizem especialistas

Ajuda descoordenada impede que Haiti se recupere, dizem especialistas

Fonte: Atualizado: sábado, 31 de maio de 2014 10:01

Um ano após o terremoto que destruiu o Haiti, a falta de coordenação entre o governo local e as organizações não-governamentais impede o avanço dos trabalhos de reconstrução, segundo disseram ao G1 o embaixador brasileiro, o ex-representante da Organização dos Estados Americanos (OEA) e o diretor de uma ONG brasileira que atua no país.

Em 12 de janeiro de 2010,  um terremoto de magnitude 7 provocou as mortes de cerca de 250 mil pessoas no país, considerado o mais pobre das Américas. Após um ano, mais de 1,5 milhão de pessoas ainda vivem em alojamentos, onde o cólera se espalha.   Embora existam cerca de 300 ONGs registradas oficialmente no Haiti, o embaixador brasileiro Igor Kipman estima que mais de 10 mil atuem no país.

“O que precisa haver é uma maior integração do trabalho das ONGs com o governo. Precisa haver uma cooperação mais estreita. As próprias ONGs não se registram nos órgãos competentes do governo e não prestam informação dos seus trabalhos. Isso acontece com o Haiti, e aí se perde recursos e se prejudica o trabalho. Tem gente dizendo que o Haiti virou a república das ONGs. A participação delas é vital e importante para o país, mas precisa ser integrada com o trabalho dos governos”, afirmou Kipman ao G1 , por telefone.

Segundo o embaixador, logo após o terremoto, o governo haitiano formou um grupo de trabalho destinado a cadastrar as entidades e os tipos de trabalhos prestados.

Pouco se avançou nos registros, mas as organizações que têm caminho aberto no país seguem desenvolvendo serviços fundamentais que seriam, em parte, responsabilidade que o debilitado governo ainda não consegue fazer.

Nesta segunda-feira (11), as organizações Cruz Vermelha, Médicos sem Fronteiras, Ação Contra a Fome e Ajuda em Ação destacaram em diferentes comunicados e declarações de seus responsáveis que a ineficácia do governo haitiano e a instabilidade política dificultam e atrasam os trabalhos de recuperação do país.

O embaixador brasileiro reconhece a fragilidade do governo do Haiti. Mesmo assim, defende que os registros sejam feitos. “O governo é fraco, mas precisa cumprir seu papel de coordenador. Se ele não tem conhecimento, não consegue cumprir seu papel”, afirmou.

Atuando no Haiti desde 2004, a ONG brasileira Viva Rio é uma das pioneiras na região de Bellé, uma das mais atingidas pelo tremor. Lá, a ONG coordena pontos de distribuição de água e desenvolve trabalhos sociais com a comunidade.   Embora admita as dificuldades do governo haitiano, o diretor da entidade, Rubem César Fernandes considera “arrogante” o trabalho de ONGs que se instalam no país sem comunicar o governo. A lei haitiana permite que as entidades trabalhem sem registro legal por até um ano.

“É arrogante acusar o governo do Haiti de desorganizado. Estamos lá para ajudar, e é preciso se aproximar do país e da sua população. Precisamos todos da ajuda uns dos outros”, disse Fernandes.

Doze meses após o terremoto, entidades internacionais estimam que 5% dos escombros que tomavam as ruas de Porto Príncipe tenham sido recolhidos.

Mais de 1 milhão de pessoas ficaram sem casas, e se agrupam em alojamentos que escurecem de lonas pretas as ruas da capital, Porto Príncipe. Os recursos que chegam ainda não foram suficientes para melhorar o cenário de destruição, na análise dos especialistas.

“Temos de mudar a metodologia de se trabalhar com o Haiti. Hoje, trabalhamos com as ONGs. É preciso se trabalhar com as instituições públicas haitianas, apoiando o reforço das instituições do estado haitiano. O Haiti se chama Haiti, não Haitiong. Esse é um elemento essencial. Se nós continuarmos, como fazem a maioria dos países doadores, a transferir recursos para as ONGs, e não reforçarmos a capacidade do estado haitiano, não resolveremos o problema do Haiti, e não os ajudaremos a resolver os problemas do Haiti”, avaliou Ricardo Seitenfus, que até dezembro era o representante da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Haiti.

Nem mesmo a Comissão Interina para Reconstrução do Haiti, criada em março do ano passado por 26 países e presidida pelo ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton conseguiu aportar os recursos previstos para a recuperação inicial do país.

Dos US$ 2,5 bilhões prometidos para 2010, chegaram 45%. O dinheiro para o combate ao cólera também foi insuficiente. A epidemia agravada pelas falta de condições pós-terremoto já deixou mais de 1,5 mil mortos.

Dos US$ 174 milhões para o combate ao cólera pedidos pelo governo do Haiti, apenas 25% teriam sido disponibilizados. “Estamos muito distante das promessas, e promessas não cumpridas resultam em frustração e decepção para todos”, disse Seitenfus.    

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