De ídolo a rival, Fanning não ameaça sonho de Medina: "Não vou desistir"

Com fim da etapa do WCT em Portugal, apenas 3 surfistas estão na briga pelo título mundial: Medina, Slater e Fanning. Campeão será definido no Havaí, em dezembro

Fonte: Globo.comAtualizado: quarta-feira, 22 de outubro de 2014 10:44

Quando ainda era uma criança e colecionava revistas com o australiano Mick Fanning,Gabriel Medina não imaginava que um dia estaria lutando por um título mundial com o ídolo. Se no início, ele passava meia hora olhando o gigante como se fosse um extraterrestre, hoje, o cenário é outro. Alguns anos se passaram até que o menino tímido e hiperativo se transformou em um fenômeno da nova geração, sendo o único surfista que depende apenas de si para chegar ao topo. Atual campeão mundial, Fanning chegou a Portugal sem grandes expectativas, mas, aos poucos, foi derrubando um a um até conquistar a etapa do Circuito Mundial de Surfe (WCT), em Peniche. Medina e Kelly Slater, por sua vez, se despediram na 3ª fase e terminaram em 13º.

A briga pelo caneco ficou ainda mais acirrada e o campeão será definido na última etapa, no Havaí, de 8 a 20 de dezembro. Com os 10.000 pontos que ganhou, o "aussie" ultrapassou o americano Kelly Slater (50.050) na vice-liderança do ranking, com 53.100, e encostou no número um do mundo, 56.550, tornando-se o seu principal rival. Uma ameaça que dorme ao lado, afinal, ele dividirá a casa com Gabriel em Pipeline, como um inimigo íntimo. 

Gabriel Medina defende a liderança do Circuito Mundial de Surfe no Rio (Foto: Carol Fontes)
Medina segue como nº 1 em busca do inédito título mundial, mas é ameaçado Mick Fanning  (Foto: Carol Fontes)

- O Mick Fanning é o meu maior rival. É claro que ainda tem o Kelly, mas o Mick se tornou o principal. Vai ser uma situação estranha e engraçada. Vamos ficar na mesma casa no Havaí, como a gente geralmente fica, e quem estiver na frente vai acabar ganhando. Vai ser um dia-a-dia difícil. Acho que todo o dia vai ser um dia de competição. Independentemente disso, o Mick é um bom amigo. Eu quero ganhar mais do nunca e ele também, por isso, sei que não vai dar mole. E eu vou fazer a minha parte, treinar, focar e viver meus dias ali. Perdi aqui em Portugal, mas nada acabou. Eu estou perto do título e quero conquistar o meu sonho. Sonho que eu tenho desde que comecei a surfar. Lutei até agora e não vou desistir - analisou Gabriel. 

Se eu ganhar (no Havaí), vou fazer o jantar para o Mick na nossa casa" 
Gabriel Medina

Tricampeão mundial (2007, 2009 e 2013), Fanning não está preocupado em encarar o companheiro de equipe, afinal, eles se encontrariam apenas em uma possível decisão: "Se eu enfrentar o Gabriel, será só na final. E se isso acontecer, ele já vai ser campeão". O australiano ainda destacou como será a rotina na casa do North Shore de Oahu:"Vou fazer o jantar e ele vai fazer o café da manhã"

- Se eu ganhar, eu que vou fazer o jantar para o Mick na nossa casa - garantiu o brasileiro. 

O PRIMEIRO CONTATO COM O ÍDOLO

Mick Fanning Surfe Portugal Peniche (Foto: AFP)
Com o título em Portugal, Mick Fanning colocou fogo na briga pelo título mundial (Foto: AFP)

A primeira vez que Medina viu o ídolo de perto ele ainda era um adolescente de 15 anos, em 2009, quando venceu o King of the Groms, na França. Além de Fanning, o também australiano Joel Parkinson e a lenda Kelly Slater também deixaram Medina impressionado. Ele os conhecia apenas de fotos de jornais e revistas, e filmes de surfe. 

- Esses caras de perto eram ET's, né? Ficava olhando todos eles por meia hora, eram os meus maiores ídolos na época. E estar disputando esse título com o Mick é demais. Ele sempre foi um surfista que eu assistia nos campeonatos e nas revistas, e, agora,  hoje eu estou podendo ter um confronto com ele direto pelo título mundial. É engraçado você competir com o seu ídolo. O Mick é uma inspiração para mim, porque é muito determinado, focado e sabe o que ele está fazendo. Mas eu também estarei focado e preparado para o momento - destacou o jovem. 

O MAPA DA MINA

Campeão das etapas de Gold Coast, na Austrália, Fiji e Teahupoo, no Taiti, Medina sairá de Portugal para voltar ao Brasil na próxima quinta-feira. Logo depois, seguirá para sua casa, onde disputará o WQS Prime de Maresias, de 3 a 9 de novembro, em São Sebastião, sem pressão por resultados. A competição será como um "treino de luxo" para a última e decisiva etapa no Taiti. Os tubos do litoral paulista são considerados os melhores do país.

- Vou disputar um campeonato em Maresias em frente à minha casa. Lá tem uma onda muito boa para treinar tubo e também vou aproveitar para testar as pranchas. Vou dar o meu melhor, mas não tenho nenhuma pressão. Quero chegar em casa, aproveitar o momento e me preparar para o Havaí. Eu dependo de mim mesmo para conseguir esse título, então eu vou fazer o que eu puder agora até o Pipe Masters. Assim que terminar o WQS, vou direto para o Havaí e não vou sair de Pipeline. Vou levar muito caldo e treinar nos tubos para chegar 100%.

Gabriel Medina Portugal  (Foto: Márcio Fernandes / Agência estado)
Gabriel Medina foi cercado por mais de 10 pessoas ao entrou no round 3 (Foto: Márcio Fernandes / Agência estado)

Vou disputar um campeonato em Maresias e aproveitar o momento e me preparar para o Havaí. Eu dependo de mim mesmo para conseguir esse título, então eu vou fazer o que eu puder agora. Perdi aqui em Portugal, mas nada acabou. A gente está perto desse título e eu quero conquistar o meu sonho. Lutei até agora e não vou desistir. 

Gabriel Medina

Um principais dos ingredientes para se formar um campeão mundial, segundo Gabriel, é ter paciência. O segundo, por sua vez, é a confiança. Acreditar que irá superar um passo de cada vez, sem pular etapas. Em um esporte solitário como surfe, ele conta com a família para tornar o caminho mais fácil.

- Para ser um campeão mundial, você precisa ter paciência e acreditar até o final, até tocar a buzina e acabar o campeonato. O que me dá força é a minha família, seja nas vitórias ou nas derrotas. Eles estão sempre do meu lado, e vieram a Peniche para dar força. Só tenho que agradecer a Deus por tudo. Estou tranquilo.

A PALAVRA POR POR TRÁS DA INSPIRAÇÃO 

Desde que derrotou o mito Slater na final da etapa de Teahupoo, na mais temida bancada de corais do mundo, também conhecida como a "praia dos crânios quebrados", Medina tem se inspirado em um trecho da Bíblia, o salmos 37. A passagem aconselha a não se preocupar com nada e nem ninguém porque o seu estará guardado. O pastor de sua igreja costuma comparar Gabriel a Davi, reconhecido como rei de Israel, que derrotou o gigante Golias. Se quiser chegar ao topo e escrever o seu nome na história como o primeiro brasileiro campeão mundial, ele também terá de superar gigantes, Slater, onze vezes campeão do mundo, e Fanning, dono de três títulos mundiais. Quem passa as palavras para o filho é a mãe, Simone, que representa o lado espiritual e psicológico, enquanto o pai, Charles, cuida da parte técnica. 

- Estou com essa palavra desde Teahupoo e vou continuar com ela até o Havaí. O meu pastor me chama de Davizinho, pois o David era um guerreiro que derrubou gigantes e é isso que ele fala, que eu sou um Davi. Consegui derrubar alguns, mas, tenho fé que vou continuar derrotando outros - disse Medina, em uma referência aos campeões mundiais e outros destaques do WCT. 

Após os treinos em Maresias, Gabriel embarcará para p Havaí no dia 15 de novembro, onde ficará por cerca de um mês. Ele não sairá de Pipeline a fim de se preparar nos tubos perfeitos do templo sagrado do surfe. 

O QUE MEDINA PRECISA PARA SER CAMPEÃO MUNDIAL

- Se Medina perder na segunda (25º) ou na terceira fase (13º) em Pipeline, precisa torcer para Slater não vencer a etapa, e Fanning não chegar às semifinais. Caso Fanning pare nas quartas, os dois farão uma bateria homem a homem para decidir o caneco.
- Se perder na quinta fase (9º), tem que torcer para Mick não chegar à final.
- Se perder nas quartas (5º) ou nas semis (3º), tem que torcer para Mick não vencer a etapa.
- Se chegar à final, conquista o título, independentemente do resultado de Mick.

Gabriel Medina, em Moche (Foto: Agência Estado)
Medina ficou em 13º em Portugal, mas descartou resultado e segue na liderança (Foto: Márcio Fernandes/Agência Estado)
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