Pastora já adotou 2 filhos de usuários na Cracolândia: “Sou de uma igreja sem paredes”

Em 13 anos de atuação na Cracolândia, a pastora Nildes ganhou o respeito dos dependentes e adotou duas crianças.

Fonte: Guiame, com informações de G1Atualizado: quarta-feira, 21 de junho de 2017 19:46
A pastora Nildes Néri trabalha há 13 anos na região da Cracolândia, em São Paulo. (Foto: Fábio Tito/G1)
A pastora Nildes Néri trabalha há 13 anos na região da Cracolândia, em São Paulo. (Foto: Fábio Tito/G1)

A vida de muitos usuários de drogas que vivem na Cracolândia, em São Paulo, tem sido transformadas pela atuação de pessoas como a pastora Nildes Néri, que há 13 trabalha para resgatar viciados na região.

A pastora Nildes, de 50 anos, chegou de Salvador em 2004 para ser missionária pela Igreja do Evangelho Quadrangular, em São Paulo. Ela passou a morar na Rua Conselheiro Nébias, região da Luz, onde havia uma grande concentração de dependentes.

“Eu nunca tinha visto na minha vida tanta gente numa rua usando drogas”, disse ela em entrevista ao G1. “Vendo as famílias ali, comecei a me preocupar com elas. Da janela de onde eu morava eu via as pessoas morrendo”.

Ao lado do marido e as duas filhas, de 11 e 15 anos, Nildes passou a perceber que a maior necessidade dos usuários de drogas era ter alguém para conversar. “Era um ouvido, um abraço, um aperto de mão, um bom dia. E eu olhei e falei: quero ajudar essas pessoas”, conta a pastora.

Nildes abriu sua própria casa e começou um “trabalho de formiguinha”. “Levava eles para um espaço para dar banho, para dar comida, para ouvir”, ela relata. “É um chamado incondicional, não é pela religião, não é pela igreja. Eu entendo que eu, como cristã, tenho uma responsabilidade”.

No tempo em que Nildes está na Cracolândia, ela ganhou o respeito dos dependentes e adotou duas crianças. O processo de adoção foi iniciado depois que ela conheceu um menino de 4 anos que foi deixado pelo pai após ser preso. Ela encontrou o avô da criança, mas ele não tinha condições financeiras para criá-lo.

Nildes Néri deixou a Bahia para trabalhar como missionária em São Paulo. (Foto: Fábio Tito/G1)

Rafael hoje tem 12 anos e conhece seu passado. “Faz pouco tempo apresentei o pai biológico dele, falo da história que ele teve lá atrás e o que ele pode conseguir daqui pra frente”, conta a pastora.

Um ano depois de adotar Rafael, Nildes acolheu em sua casa uma usuária de crack e seu filho de 6 meses. Certo dia, a mãe saiu, abandonou o filho, e a pastora ganhou a guarda da criança. Hoje, o caçula Kauan tem 7 anos.

Em 2013, Nildes foi convidada para trabalhar Programa Recomeço, um projeto do governo estadual que atende dependentes químicos. Hoje ela coordena os conselheiros da tenda localizada na esquina da Rua Helvétia com a Dino Bueno. Ela também se tornou presidente da ONG Centro Assistencial ao Povo Carente de São Paulo.

“Me sinto muito honrada de estar aqui. Eu me sinto muito honrada quando eu entro dentro da Cracolândia e eles escondem o cachimbo, e eles falam, 'olha a pastora'. É o respeito, né”, ela afirma.

“Eu me sinto grata, porque é uma oportunidade que Deus tá me dando pra eu servir o meu semelhante”, celebra a pastora. “Costumo dizer que sou uma pastora de uma igreja sem teto, de uma igreja sem parede, onde eles não são proibidos de entrar”.

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