
Durante décadas, países da Europa e os Estados Unidos enviaram missionários para diferentes partes do mundo. Agora, cristãos de regiões que receberam esses missionários estão fazendo o caminho de volta para anunciar o Evangelho aos europeus e norte-americanos.
Esse movimento será explorado na Conferência Missão Reversa 2026, que será realizada nos dias 16 e 17 de outubro, em Mantova, na Itália.
Organizada pela Faculdade Batista Pioneira e pelas Baptist Churches of New England (BCNE), a conferência reunirá líderes e missionários de diferentes países.
Em entrevista ao Guiame, o pastor brasileiro Lierte Soares, que atua nos Estados Unidos e preside as Baptist Churches of New England (BCNE), explicou que o cenário missionário mundial está passando por uma grande mudança.
“Durante muitos anos, pensamos em missões principalmente como um movimento que parte do Ocidente para o restante do mundo. Hoje, porém, Deus está fazendo algo muito maior: Ele está levantando uma Igreja global que envia e recebe missionários ‘de todos para todos os lugares’”, disse Lierte, fundador do movimento Missão Reversa.
Segundo o pastor, a presença de latino-americanos, africanos e asiáticos em países da Europa e nos Estados Unidos abriu novas possibilidades para a evangelização.
“Pessoas que vieram da América Latina, África, Ásia e de outras partes do mundo estão vivendo em regiões tradicionalmente consideradas enviadoras de missionários, como os Estados Unidos e a Europa. Essas pessoas não são apenas imigrantes ou membros de igrejas étnicas; elas podem ser instrumentos de Deus para alcançar as comunidades onde agora vivem”, disse.
Por isso, Lierte explica que a Missão Reversa não se resume a imigrantes evangelizando em outros países.
“A conferência não é simplesmente sobre imigrantes fazendo missões. É sobre reconhecer que o mundo mudou, que os movimentos migratórios transformaram as cidades e que a Igreja precisa repensar suas estratégias missionárias.”
E destacou: “O Evangelho não mudou. Mas o mundo no qual carregamos o Evangelho mudou.”
Igrejas de imigrantes
Entre os assuntos da conferência estarão cultura, identidade, imigração, filhos de terceira cultura (TCKs), liderança, evangelização e o futuro da Igreja na Europa e no Ocidente.
Um dos principais pontos será o papel das igrejas formadas por comunidades de imigrantes.
“Vamos conversar sobre como igrejas de imigrantes podem fazer uma transição importante: deixar de pensar apenas em preservação cultural e passar a desenvolver uma identidade missionária. Uma igreja que nasceu de uma comunidade imigrante pode se tornar uma ponte para alcançar a sociedade ao seu redor”, explicou Lierte.
Para ele, o desafio é anunciar o Evangelho sem confundi-lo com os costumes do país de origem do missionário.
“Não podemos confundir o Evangelho com a cultura de onde viemos. Ao mesmo tempo, não podemos simplesmente abandonar nossa identidade cultural.”
“Precisamos aprender a honrar a nação onde Deus nos colocou, compreender sua cultura, construir relacionamentos e comunicar o Evangelho de maneira contextualizada”, acrescentou.
Como alcançar as nações?
Para o pastor, a Europa se tornou um lugar estratégico para esse movimento por causa das mudanças culturais e religiosas que o continente atravessa.
“Ao mesmo tempo em que algumas sociedades europeias experimentam secularização e distanciamento da fé cristã, milhões de pessoas de diferentes partes do mundo estão vivendo dentro dessas mesmas sociedades. Isso cria uma oportunidade missionária extraordinária”, afirmou.
Ele observa que povos que antes estavam geograficamente distantes hoje convivem nas mesmas cidades.
“Para encontrar pessoas da África, da Ásia, da América Latina e do Oriente Médio, muitas vezes não precisamos atravessar oceanos. Elas estão vivendo nas nossas cidades, trabalhando nos nossos bairros, estudando nas nossas escolas e fazendo parte das nossas comunidades.”
Para Lierte, essa realidade acrescenta uma nova pergunta ao trabalho missionário da Igreja.
“Durante muito tempo perguntamos: ‘Como vamos enviar missionários para essas nações?’. Agora também precisamos perguntar: ‘Como vamos alcançar as nações que Deus trouxe até nós?’”
Segundo ele, cristãos que chegaram à Europa vindos de outras partes do mundo podem se tornar pontes para alcançar diferentes povos.
“A Europa pode se tornar um grande laboratório da Igreja global. Pessoas que foram alcançadas pelo Evangelho em outras partes do mundo estão chegando à Europa e podem se tornar testemunhas de Cristo”, disse.
O pastor faz, porém, uma ressalva: “Não estamos dizendo que todos os imigrantes são automaticamente missionários. Estamos dizendo que existe uma oportunidade extraordinária diante da Igreja, e precisamos preparar pessoas para enxergá-la e respondê-la biblicamente.”
Além da conferência
A proposta do encontro também é gerar conexões que continuem depois do evento na Itália.
“Para nós, a conferência não termina quando o último preletor desce do palco. Queremos que ela seja um ponto de encontro que gere relacionamentos, parcerias e novos projetos”, afirmou Lierte.
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Segundo ele, a escolha da Itália foi estratégica para aproximar pessoas que já trabalham nesse novo cenário missionário.
“A nossa expectativa é que pessoas que talvez nunca tivessem a oportunidade de se encontrar possam sentar à mesma mesa, compartilhar experiências, identificar necessidades e começar a pensar juntas em respostas missionárias.”
Uma das iniciativas é desenvolver hubs de Missão Reversa, criando conexões entre pessoas e igrejas de diferentes lugares.
“Queremos sair da conferência com mais do que boas lembranças. Queremos sair com amizades, parcerias, treinamento, oração, novas iniciativas e uma visão compartilhada de missão.”
Missões não é só atravessar uma fronteira
Ao deixar uma mensagem para os cristãos brasileiros, Lierte destacou:
“Eu diria à Igreja brasileira: não pense que missões é apenas aquilo que acontece quando você pega um avião e atravessa uma fronteira. Missões começa quando aprendemos a enxergar as pessoas que Deus colocou ao nosso redor.”
Ele lembrou que o Brasil primeiro recebeu missionários de outras nações e, ao longo dos anos, também se tornou um país enviador.
“A Igreja brasileira precisa continuar enviando missionários, sustentando missionários, plantando igrejas e levando o Evangelho até os confins da terra. Mas também precisa compreender que Deus está levando brasileiros e latino-americanos para viverem em lugares que precisam novamente ouvir o Evangelho.”
Lierte destacou ainda os cristãos que cresceram ou vivem entre diferentes culturas.
“Existe uma geração inteira vivendo entre culturas. São filhos de imigrantes, filhos de missionários, estudantes internacionais, profissionais que mudaram de país e pessoas que cresceram entre diferentes mundos culturais.”
“Essa geração pode ser uma das maiores pontes missionárias da Igreja no século XXI”, afirmou.
Para o pastor, esse é o coração da Missão Reversa: “Deus está levantando Sua Igreja em todas as partes do mundo para alcançar todas as partes do mundo.”
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