Sua família dorme bem a noite?

Sua família dorme bem a noite?

Fonte: Atualizado: sábado, 31 de maio de 2014 09:38

“Tudo o que você precisa é de uma boa noite de sono!” Ao longo de toda nossa vida, quantas vezes já não ouvimos esse diagnóstico? Necessidade fisiológica tão essencial para nossa sobrevivência quanto comer, beber e respirar, o ato de dormir sempre foi considerado pelo senso comum um santo remédio. E, para variar, a sabedoria popular estava mesmo certa. O sono tem cada vez mais chamado a atenção de pesquisadores que procuram desvendar seus segredos e entender as disfunções relacionadas a ele – e, claro, como isso afeta nossa saúde. Pois é, nosso merecido descanso tem se revelado uma baita medida preventiva contra várias doenças.

Além do óbvio benefício para o descanso físico e mental, hoje já se sabe que dormir estimula a criatividade, ajuda na solução de problemas e faz um tremendo bem para a memória. Estudos comprovam que as horas de sono também são imprescindíveis para que o cérebro desencadeie processos químicos que vão recompor ossos e tecidos, recuperar células, cicatrizar órgãos e a pele e liberar hormônios que vão regular, por exemplo, o crescimento e o controle de apetite. Até mesmo a “siesta”, hábito consagrado por mexicanos e espanhóis e seguido por nossos pais e avós, ganhou respaldo da ciência: além de garantir mais disposição e melhorar a performance no trabalho, aquele cochilo difícil de resistir após o almoço teria o poder de reduzir o risco de doenças cardiovasculares e de estimular os processos de aprendizagem.

Mas, infelizmente, não é todo mundo que consegue pregar os olhos com facilidade quando a noite cai – dados indicam que quase metade da população brasileira dorme mal. E, se uma noite de sono pode fazer maravilhas por nossa saúde e por nosso temperamento, uma noite mal dormida pode estar cada vez mais relacionada a uma série de problemas. Além daquela terrível sensação de ressaca e do conhecido mau humor no dia seguinte, os pesquisadores têm feito descobertas interessantes e surpreendentes também nesse sentido. Dormir pouco pode deixar as mulheres mais gordas e até aumentar os riscos de se desenvolver pressão alta. Ok, mas, se sabemos que a falta de sono pode ser tão prejudicial, por que ainda tem tanta gente com dificuldade para dormir?

Questão de hábitos Existem vários fatores que podem transformar a hora de descanso em um verdadeiro pesadelo. Entre os problemas mais sérios estão as doenças crônicas (cardiopatias, doenças renais, dores e distúrbios intrínsecos do sono). Os ruídos, a temperatura, a luminosidade do ambiente e outros “fatores externos” também podem atrapalhar o descanso de muita gente. Mas, apesar de alguns fatores não dependerem de nós, os principais motivos das noites mal dormidas dizem respeito aos nossos próprios maus hábitos. Uma pesquisa feita por um grupo de neurologistas do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP indicou que 60% das causas de insônia são atribuídas ao fato de realizarmos tarefas ou procedimentos que, em vez de ajudar, atrapalham ainda mais nosso descanso noturno, como o uso de estimulantes, o consumo de álcool e tranquilizantes, comer demais ou de menos na hora de deitar, assistir à TV no quarto, usar computador. Tudo isso afeta o sono porque acaba mexendo com o ritmo normal do nosso corpo, que biologicamente já está adaptado para pisar no freio conforme a noite cai. Esses “pequenos pecados” mudam nosso compasso e acabam vindo à tona justamente na hora em que vamos para a cama.

Apesar de haver relatos de insônia em civilizações antigas, sabe-se que a tecnologia tem se tornado uma grande incentivadora para que as pessoas demorem mais a “desligar”. Vivemos hoje em uma sociedade que funciona 24 horas por dia, em uma eterna competição pelas poucas horas que sobram. Dormir, então, virou item de luxo. O neurologista Alexandre Machado, do Hospital Santa Paula, de São Paulo, tem observado cada vez mais pacientes que se queixam de dificuldade para pegar no sono. Quando eles relatam seus hábitos “pré-cama”, costumam incluir uma lista de coisas que abrangem aquela checadinha nos e-mails ou postar a última mensagem do dia no Twitter. “É ideal que no fim do dia as pessoas tenham um ritmo mais lento, que não façam atividades físicas ou mentais estressantes”, diz Machado. “Internet à noite e o hábito de levar trabalho para casa são grandes inimigos de uma boa noite de sono.”

Uma prova de que pequenos detalhes são capazes de estragar uma noite bem dormida foi sentida pela técnica judiciária gaúcha Eliana Raffaelli, de 35 anos. Adepta de sete horas de sono ininterruptas e consciente de que precisa evitar atividades como o uso do computador antes de se deitar, há dois anos ela resolveu testar uma daquelas receitas infalíveis para emagrecer: tomar chá verde. O resultado teve sabor de pesadelo. “Me disseram que o chá verde era bom para emagrecer e, como mulher é exagerada, passei a tomar 1 litro por dia, inclusive à noite”, lembra. Quando já fazia uma semana que só conseguia dormir depois das 3 da madrugada, uma amiga matou a charada: era o chá. E lá se tinham ido as noites bem dormidas. Dormindo com os mitos Antes de entender melhor o que atrapalha e o que ajuda a dormir, entretanto, vale nos fazermos a pergunta: o que é uma noite bem dormida? “É aquela em que a pessoa não demora a adormecer, apresenta um sono sem grandes interrupções e acorda no dia seguinte sentindo-se descansada”, afirma a neurologista Anna Karla Smith, do Instituto do Sono, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Simples como fechar os olhos, não? Os leitores mais atentos terão percebido que ela não falou em quantidade, pois justamente o que importa é a qualidade – e o melhor indicador é a satisfação de quem dormiu.

Há quem acorde renovado somente depois de dez horas na cama, outros se saciam com quatro horas. Portanto, a afirmação de que é preciso dormir oito horas seguidas a cada dia é um mito. Em seu livro Insomniac (“Insone”, sem edição no Brasil) a professora de literatura – e vítima das noites em claro – Gayle Greene, do Scripps College, nos Estados Unidos, revela que há muitas formas diferentes na maneira de dormir de outras sociedades. Em Bali e na Nova Guiné, por exemplo, as pessoas cochilam conforme sentem necessidade, no meio do dia, e levantam-se mais à noite. Segundo Greene, até o advento da era industrial era muito comum na Europa se dividir a noite em “primeiro sono” e “segundo sono”. As pessoas iam para a cama logo depois de anoitecer, dormiam por quatro horas e, em seguida, acordavam para escrever, fumar, rezar, transar ou mesmo visitar os amigos. Passadas duas ou três horas, voltavam para a cama.

Outro mito envolvendo o sono é que adormecer é um processo lento e gradual. Para a maioria das pessoas, é justamente o contrário: elas simplesmente “apagam” assim que se deitam. Historicamente, aliás, os homens levaram fama nesse sentido: as esposas vivem reclamando que é só seus maridos encostarem (no sofá, na poltrona do cinema...) para logo cochilarem. Um estudo feito com 2365 pacientes do Instituto do Sono tratou de tirar a dúvida: enquanto as mulheres demoram mais para pegar no sono (25 minutos, em média), os homens dormem mais rapidamente (menos de 20 minutos). No entanto, as mulheres passam mais horas em sono profundo. Já a ala masculina fica mais tempo nos estágios superficiais de sono e tem seu repouso noturno mais prejudicado em razão de distúrbios como o ronco e a apneia, aquelas breves paradas

de respiração.

Em busca do sono perdido Muitas pessoas, independentemente do sexo, também sofrem de sono leve. Basta um barulho, uma luz, um movimento do parceiro na cama para despertarem. “A profundidade do sono está relacionada ao tipo de ondas cerebrais apresentadas por cada pessoa. Quanto mais lentas elas forem, o sono tende a ser mais profundo. Algumas, seja por uma condição orgânica ou emocional, apresentam intrusão de ritmos mais rápidos”, afirma Anna Karla Smith.

A verdade é que o tipo de sono varia na mesma proporção com que diversificamos as posições do nosso corpo em uma noite de sono. Não existe padrão: cada um de nós dorme de uma forma diferente. A atriz Patricya Travassos, apresentadora do Alternativa Saúde, do canal GNT, tem sua fórmula. “Quarto escurinho, silêncio, lençol cheiroso, colchão gostoso, muitos travesseiros, TV desligada, ar-condicionado a 21 graus e uma técnica para relaxar a mente”, diz ela.

O termômetro para saber se a noite passada foi realmente boa (ei, estamos falando de dormir!) é tentar perceber quanto seu corpo descansou. No dia seguinte, se você sentir sono, dificuldade de concentração e de memória, algo pode estar errado. Daí, vale ponderar se está fazendo alguma coisa errada, mantendo algum hábito que pode espantar aquele soninho ou se o problema vale uma visita a um consultório médico (confira as dicas das próximas páginas). O importante é encontrar sua receita para um sono tranquilo. E se lembrar do conselho que até a vovó já conhecia: quem dorme bem acorda melhor ainda.    

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