
Cristã desde adolescente, Membro da Igreja Metodista Wesleyana, Diretora Geral de Ministérios, Adm de Empresas, Professora Universitária, Empresária, Mentora de Líderes e Equipes e CEO da Cyclos Consultoria.

Introdução: uma estação que floresce em muitas cores
Vamos expandir o olhar, nos dois primeiros episódios desta série, a vida despertou e o solo foi preparado. Agora chegou a hora de olhar para o jardim inteiro. E aqui está a verdade que a primavera nos ensina sem dizer uma palavra: nenhum jardim bonito é feito de uma flor só. A primavera não repete a mesma cor, o mesmo perfume, o mesmo tamanho de pétala. Ela mistura. E é justamente na mistura que a estação se torna inesquecível.
Repare no calendário. O dia 21 de setembro é o Setembro Verde, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Lá no primeiro episódio, quando falamos das cores de setembro, dissemos que “o verde acolhe quem é diferente”. Hoje a série colhe o que plantou. A data já estava pedindo este tema; nós só precisamos ter olhos para enxergar.
Porque a inclusão é um assunto de pauta social, mas também uma questão de jardim. É sobre quem tem lugar ao sol, quem tem água, quem é regado e quem é deixado de lado para secar. A tônica aqui é o amor em prática.
A primavera de Deus não é uma exposição de flores simetricamente iguais é um jardim onde cada vida floresce no seu tempo, do seu jeito, para a glória do mesmo Criador.
I - O que é inclusão, na prática
Inclusão não é abrir espaço de má vontade, mas é ser e dar suporte, práticas na íntegra do verbo (ação) é "suportar" a diferença. Inclusão é outra coisa: é reconhecer que o jardim precisa daquela flor. É entender que a mesa fica incompleta quando só se sentam os iguais.
Na prática, inclusão é a mesa ampliada, a mesa que se alarga para caber quem é diferente: a pessoa com deficiência, o neurodivergente, o de outra origem, o de outra geração, o que crê de outra forma, o que ainda está aprendendo, o que já errou. Inclusão é olhar para quem normalmente fica do lado de fora e dizer: “o teu lugar já estava guardado”.
Há também um segundo movimento, e ele é o mais difícil: a poda. Inclusão não é só incluir o outro; é podar em mim o que exclui.
O preconceito silencioso, a pressa de julgar, o riso diante do diferente, a mesa que só tem cadeira para “os iguais”. A poda não é só para a planta é para o jardineiro. Antes de abrir a porta para o outro, precisamos arrancar de nós a cerca que construímos por dentro.
E há uma frase que deveria estar pregada na porta de cada casa, de cada igreja, de cada empresa: ninguém deveria precisar se encolher para pertencer. Uma flor que precisa diminuir para caber no vaso não floresce ela sobrevive.
Florescer exige solo seguro, exige espaço, exige a certeza de que aquela vida é bem-vinda exatamente como é.
II - Fundamento Bíblico: o jardim que Deus cultiva junto
A Escritura não trata a inclusão como gentileza trata como doutrina. Veja Isaías 56. O profeta fala diretamente a dois grupos que a religião da época mantinha à margem: o estrangeiro e o eunuco.
Ao eunuco, que a lei considerava excluído da assembleia, Deus diz: “não diga o eunuco: Eis que sou uma árvore seca... darei lugar na minha casa e dentro dos meus muros, e um nome melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Isaías 56:3,5). Repare: Deus não dá ao excluído um canto escondido dá-lhe lugar na casa, dentro dos muros, e um nome que nunca se apaga. A inclusão de Deus não é tolerância; é pertencimento com identidade. E Ele conclui: “a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Isaías 56:7). Não para os iguais para todos.
Em Lucas 14, Jesus conta a parábola da grande festa e nomeia quem deve ser convidado: (Lucas 14:13). Jesus redefine quem senta à mesa, e a régua não é o mérito; é o convite. Enquanto nós montamos mesas por currículo, Deus monta mesas por amor.
E para que não fique dúvidas em João 9. Diante do cego de nascença, os discípulos perguntam: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”
A lógica deles era antiga e ainda hoje é nossa: se tem algo diferente, deve haver culpa. E Jesus responde: "Nem ele nem seus pais, mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus" (João 9:3). Ou seja: a diferença não é um castigo é espaço para Deus se mostrar.
Paulo escreve ainda em Gálatas 3:28: “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; porque todas vós sois um em Cristo Jesus.” A inclusão não é uma causa paralela ao evangelho é o próprio evangelho em prática. E Efésios 2:14 nos dá a imagem que fecha tudo: “Ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um, e destruiu a parede da separação.” O muro já caiu na cruz. Nós é que insistimos, teimosos, em reconstruí-lo com as nossas mãos.
III - Perspectiva da Neurociência e da Gestão: o jardim que floresce junto
A ciência da gestão moderna chegou a uma conclusão que a Escritura já anunciava há séculos. Amy Edmondson, pesquisadora de Harvard, demonstrou que equipes só atingem alta performance quando existe segurança psicológica: a crença de que ninguém será punido ou humilhado por falar, por perguntar, por admitir um erro. Em ambientes assim, as pessoas florescem. Em ambientes onde é preciso se encolher, elas apenas sobrevivem e o jardim inteiro adoece com elas.
A neurociência confirma o mesmo princípio por outro caminho. O cérebro cresce no encontro com o diferente. A neuroplasticidade, essa capacidade de criar novas conexões ao longo de toda a vida, se alimenta de novidade e a maior novidade que existe é o outro.
Uma sala inteira de pessoas iguais aprende pouco; uma sala diversa, com deficiências, idades, histórias e formas de pensar distintas, é um solo de aprendizado. A diferença não atrasa o jardim ela o aduba.
E há a linguagem, que é onde a inclusão começa ou termina. Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta, ensinou que toda crítica é a expressão trágica de uma necessidade não atendida. Antes de julgar o outro, ao invés de descrever com observação sem julgamento, precisamos reconhecer.
A pergunta que transforma é simples: como eu falo sobre quem é diferente de mim? A inclusão começa na boca na forma como descrevemos, como chamamos, como olhamos.
E há um custo que precisamos ter coragem de encarar: a exclusão fere o excluído e outras pessoas que estão à sua volta. Contamina o ambiente, o solo...
A solidão crônica e o estresse de ter que se encolher adoecem corpo e mente de quem é deixado de fora. Todo o ambiente é empobrecido, o jardim inteiro, que perde a cor, o perfume e a força daquela flor. Inclusão, portanto, não é só gentileza é higiene do jardim. É o que mantém a terra viva.
IV - E quando você é a flor do lado de fora do muro?
Aqui, paramos para abraçar dois grupos porque este episódio tem dois lados, e os dois precisam ser vistos.
Para quem já se sentiu excluído. A flor do lado de fora do muro. O último a ser escolhido. O invisível na sala.
Quem sempre ouviu "não é para você". Talvez você carregue essa dor há anos, e ela tenha virado uma voz interna que diz: "eu não presto, eu sou o problema". Preste atenção no que a Escritura diz: no jardim de Deus não existe flor do lado de fora do muro, porque o muro já foi derrubado (Efésios 2:14). A sua diferença não é defeito é o seu jeito de revelar Deus. O cego de João 9 não era um erro; era um palco. E quem te rejeitou não define quem você é; Quem te criou define.
Para quem descobre, honestamente, que tem excluído. Talvez sem perceber, a cadeira que não acomoda, a linguagem que não alcança, a pressa que não espera, a piada que humilha, a mesa que só tem lugar para "os iguais".
Reconhecer isso não é motivo para culpa paralisante; é o começo da poda. O jardineiro que arranca de si o próprio preconceito não deixa o jardim pior deixa-o mais florido. Ninguém precisa se paralisar hoje por ter aprendido a excluir; só não pode continuar depois de ter enxergado.
E a verdade que liberta os dois lados é esta: inclusão não é sobre “eles” é sobre nós. Todos nós, em algum momento da vida, já fomos a flor de fora, e todos nós, em algum momento, já esquecemos uma flor. A primavera de Deus é a estação em que os dois lados se encontram na mesma mesa, e descobrem que sempre couberam ali.
V - Para Pensar e Agir
Quem está sentado à sua mesa hoje? E quem está do lado de fora que Deus quer que você convide?
Que cerca você construiu por dentro que precisa cair: um julgamento, uma pressa, uma linguagem, um riso diante do diferente?
Quando você encontra alguém diferente, você pergunta como os discípulos "quem pecou?" ou pergunta como Jesus: "que Deus quer manifestar aqui?" (João 9)?
Você já se sentiu a flor do lado de fora do muro? Que dor essa memória carrega e o que ela te ensina sobre como receber os outros?
Ação prática: esta semana, faça o gesto da mesa ampliada convide para a sua mesa, literal ou simbolicamente, alguém diferente de você: de outra geração, de outra origem, de outra forma de ver a vida, alguém que costuma ficar de fora ou que naturalmente (até aqui) você não a perceberia para estar em sua mesa.
Sugiro também façamos também o exercício da poda: escrever num papel um pensamento ou prática que você quer deixar sair do seu jardim, e comece, hoje, a arrancá-lo pela raiz.
"Nem ele nem seus pais, mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus." — João 9:3
Vamos orar juntos?
“Senhor, obrigado porque o Teu jardim é mais bonito do que eu imaginava porque nele cabe toda flor. Dá-me olhos que vejam como Tu vês: sem julgar, sem pressa, sem muro. Mostra-me a flor que eu deixei do lado de fora, e dá-me a coragem de podar em mim o que a mantém distante. Que a minha mesa seja como a Tua: ampla, acolhedora, cheia de gente diferente revelando o mesmo Deus. E se eu me sentir, hoje, a flor de fora, lembra-me de que o muro já caiu e que o meu lugar já estava guardado. Amém.”
Importante: Se este conteúdo agregou em sua jornada e tocou o seu coração, compartilhe. Você pode ser a primavera de alguém que passou a vida do lado de fora do muro, alguém que precisa ouvir, hoje, que o lugar dele já estava guardado. Convide essa pessoa a caminhar conosco nesta série.
QUE VENHA A PRIMAVERA... e que o jardim tenha lugar para toda flor!
Nota: adota-se aqui a expressão ‘pessoa com deficiência’, consagrada pela Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015). A forma coloca a pessoa em primeiro lugar, tratando a deficiência como uma característica e não como definição de quem ela é.
Rosana Sá (@rosanasa_oficial) é mentora executiva, professora universitária, CEO da Cyclos Consultoria e autora do livro Ativando Mulheres: Do Secreto ao Legado Através do Discipulado. Especialista em comportamento, neurociência e liderança, atua como palestrante e conferencista. Na IMW, serve ao Senhor como Diretora Geral de Ministérios, conduzindo líderes e equipes com propósito.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
Leia o artigo anterior: O solo antes da flor — saúde mental é o terreno do florescer
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