
Matheus Grismaldi é escritor, missionário e assessor de comunicação & imprensa em Angola, África. Também integra equipe de plantações de Igrejas, dedica-se ao discipulado e apaixonado pelo Evangelho.

Existe uma maneira de apresentar a fé cristã que transforma a vida em uma sequência de promessas de dias melhores. Basta acreditar, perseverar, manter o pensamento positivo e confiar que, em algum momento, aquilo que desejamos acontecerá. Essa forma de espiritualidade pode parecer atraente, especialmente em períodos difíceis, porque oferece respostas rápidas para problemas que quase nunca são simples.
O Evangelho apresentado nas Escrituras é muito mais profundo.
A Bíblia não esconde a dureza da existência humana. Suas páginas estão cheias de perdas, conflitos, injustiças, enfermidades, fracassos, dúvidas e momentos em que pessoas sinceras não compreendem aquilo que está acontecendo. Homens e mulheres que amavam a Deus enfrentaram situações que não escolheriam e, em muitos casos, não receberam uma explicação imediata para aquilo que viveram.
Isso deveria nos fazer pensar sobre a maneira como apresentamos a fé.
Quando o cristianismo é apresentado como uma garantia de que tudo dará certo, a própria realidade se encarrega de colocar essa promessa à prova. Basta chegar uma doença, uma perda financeira, uma separação, uma injustiça ou a morte de alguém querido para que a pessoa perceba que a vida não funciona de acordo com uma fórmula espiritual.
A fé cristã não elimina a realidade. Ela muda a maneira como o cristão a enfrenta.
Jesus nunca prometeu aos seus discípulos uma existência sem sofrimento. Pelo contrário, falou abertamente sobre as dificuldades que encontrariam. Seus primeiros seguidores conheceram perseguição, rejeição, perdas e morte. O próprio Cristo passou pela experiência da dor, da solidão e da crucificação.
A cruz ocupa o centro do cristianismo justamente porque a fé cristã não tenta esconder o sofrimento.
Jesus poderia ter sido apresentado como um vencedor distante das fragilidades humanas. O Evangelho apresenta algo diferente. Ele entrou na história, conviveu com pessoas, chorou, foi rejeitado, sofreu e morreu. A ressurreição veio depois da cruz, e não como uma forma de apagá-la.
Essa sequência importa.
A esperança cristã não depende da capacidade de evitar tudo aquilo que nos causa dor. Ela nasce da convicção de que a dor não terá a palavra definitiva. Essa diferença pode parecer pequena, mas muda completamente a relação do cristão com os períodos difíceis da vida.
Também nos ensina a ter mais cuidado com as respostas que oferecemos para o sofrimento dos outros.
Há dores que não precisam imediatamente de uma explicação. Às vezes, a pessoa precisa de presença antes de precisar de uma resposta. A própria Bíblia preserva relatos de pessoas que perguntaram, choraram e permaneceram sem entender completamente os caminhos de Deus.
O livro de Jó talvez seja um dos exemplos mais fortes disso. Jó sofre profundamente e seus amigos tentam explicar sua situação a partir de conclusões religiosas. O problema é que suas explicações não dão conta da realidade. Eles tentam transformar sofrimento em uma equação simples, e o texto bíblico mostra os limites dessa tentativa.
Existe humildade em reconhecer que não sabemos explicar tudo.
Isso não diminui a fé. Pelo contrário, pode protegê-la de respostas superficiais.
O cristianismo não precisa transformar cada tragédia em uma mensagem motivacional. Também não precisa afirmar que toda porta fechada representa imediatamente uma oportunidade melhor. A vida é mais profunda do que isso. Há acontecimentos que deixam marcas, decisões que produzem consequências e perdas que permanecem dolorosas mesmo depois de muito tempo.
Ainda assim, existe esperança.Não uma esperança baseada na certeza de que tudo acontecerá como planejamos, mas aquela que encontra em Cristo uma razão para continuar caminhando. A ressurreição anuncia que a morte não venceu, que o pecado não terá a palavra final e que a história não termina no lugar mais escuro. Por isso, o Evangelho não precisa ser transformado em conto de fadas para ser uma boa notícia.
Ele é boa notícia justamente porque fala a verdade sobre a condição humana e, ao mesmo tempo, apresenta uma esperança que não depende de negar essa condição. O mundo pode ser difícil. A vida pode produzir perguntas para as quais não teremos respostas imediatas. A fé continua tendo lugar nesse cenário.
Talvez uma das formas mais maduras de acreditar seja aprender a permanecer quando não temos todas as explicações.
Continuar confiando sem transformar Deus em uma fórmula. Continuar esperando sem exigir que a esperança tenha a forma que imaginamos. Continuar seguindo Cristo mesmo quando a realidade não corresponde ao que planejamos.
O Evangelho não nos promete uma vida de conto de fadas. Ele nos apresenta Cristo dentro da realidade humana, a cruz, a ressurreição e uma esperança que não depende das circunstâncias. É justamente por isso que continua sendo uma mensagem para o mundo real.
Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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