
Fernando Moreira é formado em Ciência da Computação e Teologia. Mestrado em Ciência da Computação. Doutorado em teologia. Membro da Academia de Letras, Artes e Cultura do Brasil. Associado do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão (1 Tessalonicenses 5:3).
Quando os construtores começam a temer a própria torre
Em 14 de setembro de 2026, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, fez um alerta que chamou a atenção do mundo. Segundo ele, a humanidade estaria “à beira de uma mudança irreversível”, e o desenvolvimento da inteligência artificial poderia ameaçar direitos fundamentais, inclusive o direito à vida.
O que torna esse alerta particularmente significativo é que ele não vem apenas de críticos da tecnologia. Pesquisadores que estiveram ou ainda estão na linha de frente do desenvolvimento da inteligência artificial também manifestam preocupações sobre a superinteligência e os riscos de perder o controle sobre tecnologias cada vez mais poderosas. Alguns chegam a considerar cenários em que a própria sobrevivência humana estaria em risco.
É uma situação contundente: quem está construindo a torre começa a perguntar se a torre pode cair. Talvez seja exatamente aqui que a história bíblica de Babel volte a falar à nossa geração. Não porque a Bíblia tenha mencionado computadores ou algoritmos. Não mencionou. Mas porque a Palavra de Deus conhece profundamente o coração humano.
Babel não morreu. Apenas mudou de linguagem.
Gênesis 11 registra uma das histórias mais impressionantes da Escritura: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra (Gênesis 11:4). Babel não era apenas uma construção. Era um projeto de autonomia. Era uma humanidade dizendo: podemos construir nosso próprio futuro, estabelecer nosso próprio nome e determinar nossos próprios limites.
A tecnologia, em si mesma, não é o problema. O problema começa quando a criatura transforma aquilo que deveria ser instrumento em objeto de adoração; quando a capacidade humana deixa de ser recebida como dádiva e passa a ser utilizada como argumento para a independência de Deus.
Hoje, a torre ganhou uma nova linguagem. Seus tijolos são dados. Suas paredes são códigos. Seus arquitetos são cientistas, engenheiros, investidores e corporações. A inteligência artificial pode ampliar extraordinariamente aquilo que somos capazes de fazer. Porém existe uma pergunta que nenhum algoritmo pode responder: Até onde devemos ir?
Essa pergunta não é apenas tecnológica. É moral. É filosófica. É espiritual. O próprio texto de Gênesis diz: Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam. E disse o Senhor: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer (Gênesis 11:5-6). O problema de Babel não era a capacidade de construir. Era uma humanidade poderosa e determinada a avançar sem reconhecer seus limites diante de Deus.
Babel não morreu. Babel apenas aprendeu a programar.
A serpente ainda diz: “sereis como deuses”. Antes de Babel, porém, houve o Éden. A serpente disse à mulher: No dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como deuses, sabendo o bem e o mal (Gênesis 3:5). A tentação não era simplesmente adquirir conhecimento. Era decidir que o homem poderia determinar por si mesmo o que é certo e errado.
A criatura queria autonomia moral. Queria conhecer sem depender. Queria decidir sem obedecer. Queria ser como Deus. A tecnologia não criou essa tentação. Ela apenas oferece ao homem ferramentas cada vez mais poderosas para expressá-la. Quem determina o que um algoritmo deve considerar correto? Quais valores são incorporados aos dados? Quem define os limites? Quem decide o que pode ou não ser automatizado? Algoritmos não surgem no vácuo. São criados por pessoas, treinados com dados produzidos por pessoas e desenvolvidos segundo objetivos definidos por pessoas. Por isso, a pergunta talvez não seja apenas: A IA será alinhada aos valores humanos? Mas: A quais valores humanos? Quem definiu esses valores?
Se a própria humanidade já não consegue concordar sobre verdade, justiça, dignidade e bem, como poderá simplesmente transferir essas decisões para sistemas cada vez mais poderosos? Isaías escreveu: Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem chamam mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas (Isaías 5:20). Talvez esse seja um dos grandes desafios da era da inteligência artificial: não apenas criar máquinas inteligentes, mas continuar formando seres humanos capazes de discernir entre o bem e o mal.
Quando os próprios construtores soam o alarme
Algumas das preocupações mais sérias sobre inteligência artificial não vêm apenas de filósofos, teólogos ou religiosos. Vêm também de pessoas que participaram diretamente da construção dessa tecnologia. Pesquisadores alertam sobre sistemas capazes de se auto aperfeiçoar, sobre a velocidade da corrida tecnológica e sobre a possibilidade de que a capacidade dos sistemas avance mais rapidamente do que nossa capacidade de compreendê-los e controlá-los.
Alguns chegam a considerar cenários de risco extremo. Outros afirmam que a inteligência artificial pode, em determinadas condições, representar uma ameaça existencial. Não precisamos transformar cada previsão em profecia para levar essas advertências a sério. A Bíblia não nos chama a adorar a tecnologia. Também não nos chama a demonizá-la. Ela nos chama ao discernimento.
Jesus perguntou: Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Marcos 8:36). Podemos conquistar velocidade, produtividade, conhecimento e poder computacional. Mas para quê? Se pudermos produzir mais, mas não soubermos por que produzimos; se pudermos saber mais, mas não soubermos distinguir verdade de mentira; se pudermos automatizar mais, mas perdermos nossa responsabilidade moral; se pudermos construir máquinas cada vez mais inteligentes, mas esquecermos quem somos, talvez estejamos confundindo progresso com propósito.
Quando a criatura começa a brincar de Criador
Existe uma questão ainda mais profunda. Se algum dia a humanidade criar sistemas com capacidades gerais extraordinárias, capazes de aprender, raciocinar e operar em múltiplos domínios, surgirá uma pergunta que ultrapassa a engenharia: O que significa ser humano? A Bíblia começa a resposta em outro lugar: E criou Deus o homem à sua imagem (Gênesis 1:27).
O valor humano não nasce da produtividade. Não nasce da velocidade. Não nasce da inteligência. Não nasce daquilo que uma máquina consegue ou não consegue fazer. O ser humano tem dignidade porque foi criado à imagem de Deus. Por isso o salmista declara: Eu te louvarei, porque de um modo assombroso e tão maravilhoso fui feito (Salmo 139:14).
Talvez uma das grandes batalhas espirituais da era da inteligência artificial não seja descobrir se as máquinas podem se tornar semelhantes aos homens. Talvez seja impedir que os homens passem a acreditar que são apenas máquinas. Quando reduzimos uma pessoa a dados, produtividade, eficiência, comportamento previsível ou capacidade econômica, começamos a esquecer uma verdade básica: o homem não é um produto. O homem é criatura. E criatura não é Criador. E quando a criatura aceita o Criador como Senhor e Salvador de sua vida, se torna filho (a).
A espada que pode cortar a própria mão
Conta-se a história de um ferreiro habilidoso que sabia forjar as lâminas mais afiadas do mundo. Um dia, o rei o chamou: — Quero que você forje uma espada invencível. Ela deverá cortar tudo, inclusive todas as outras espadas.
O ferreiro pensou e respondeu: — Majestade, essa espada não pode ser forjada.
— Por quê? — Porque, quando encontrar a si mesma, ela cortará a si própria.
O rei insistiu: — Então faça uma espada que nunca encontre a si mesma.
O ferreiro respondeu: — Nesse caso, ela nunca poderá ser usada. E uma espada que nunca é usada é apenas ferro velho.
Estamos tentando construir sistemas cada vez mais poderosos. Sistemas capazes de aprender, escrever código, tomar decisões e melhorar seu próprio desempenho. A pergunta inevitável é: O que acontece quando a ferramenta começa a ultrapassar a capacidade daquele que a criou de compreendê-la?
Não sou contra o progresso. Amo a tecnologia. Mas trago um alerta à essência: ao temor do Senhor. Máquinas não são humanas. Não entendem o espiritual. Não temem a Deus. Uma espada não precisa ser mal-intencionada para ser perigosa. Basta ser poderosa demais para ser controlada. E talvez o problema nem seja uma máquina que nos odeia.
Pode ser uma máquina que simplesmente não entende por que deveria nos amar. Mas existe algo ainda mais inquietante: pessoas podem programar em sistemas suas próprias amarguras, vilezas e vaidades. A tecnologia pode ampliar não apenas nossa inteligência, mas também nossos erros. A Bíblia nos lembra: Pois todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado (Lucas 14:11).
Quando o progresso perde o propósito
A história humana sempre foi marcada por avanços tecnológicos. O problema não é avançar. O problema é avançar sem saber para onde estamos indo. A inteligência artificial já é utilizada para produzir conteúdo, automatizar tarefas, analisar informações, tomar decisões, identificar padrões e ampliar capacidades humanas. Ao mesmo tempo, surgem preocupações sobre desinformação, manipulação, exclusão, concentração de poder, vigilância e armas autônomas.
Não é necessário acreditar que toda tecnologia é má para reconhecer que toda tecnologia precisa de limites. O poder exige mordomia. O conhecimento exige sabedoria. A liberdade exige responsabilidade. E a inteligência exige temor do Senhor. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Provérbios 9:10).
Talvez estejamos vivendo uma época em que conseguimos produzir inteligência mais rapidamente do que conseguimos produzir sabedoria. E essa combinação é perigosa. Porque conhecimento sem sabedoria pode ampliar o alcance dos nossos erros. Tecnologia sem ética pode acelerar injustiças. Poder sem caráter pode transformar ferramentas em instrumentos de dominação. E inteligência sem temor de Deus pode alimentar novamente a antiga ilusão de Babel: “Não precisamos de ninguém acima de nós.”
As dores de parto de uma nova era
Jesus advertiu seus discípulos: E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim (Mateus 24:6). Não devemos transformar cada inovação tecnológica em uma profecia específica. Nem todo algoritmo é do Anticristo. Nem toda inteligência artificial é sinal do fim. Mas isso não significa que a Igreja deva fechar os olhos para as transformações culturais e espirituais que acompanham o avanço tecnológico. As tecnologias não transformam apenas aquilo que fazemos. Elas podem transformar aquilo que pensamos ser.
A desinformação pode distorcer nossa percepção da verdade. A automação pode alterar nossa relação com o trabalho. Os algoritmos podem influenciar aquilo que vemos, desejamos e acreditamos. A concentração tecnológica pode concentrar poder. Talvez as grandes guerras da próxima geração não sejam apenas guerras por território. Podem ser guerras pela verdade. Guerras pela atenção. Guerras pela identidade. Guerras pelo controle da narrativa. Guerras pela definição do que significa ser humano. E, nesse cenário, a pergunta bíblica permanece: Quem governará o coração do homem?
* Na próxima semana, esta reflexão será concluída com a segunda e última parte de “A Torre, a Serpente e o Algoritmo”, que abordará como a Igreja deve responder aos desafios da inteligência artificial. Acompanhe no dia 7 de outubro.
Fernando Moreira (@prfernandomor) é pastor da Igreja Batista do Povo, Doutor em Teologia e Mestre em Computação. MBA em Vendas, Marketing e IA. Membro da Academia de Letras. Mentor de alunos de MBA. Associado Haggai Internacional (HLE). Une o conhecimento técnico, teológico e executivo, escritor, palestrante.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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