
Eguinaldo Hélio de Souza é pastor, professor de diversas matérias teológicas, jornalista, apologista, autor de mais de 15 livros. Casado com Lídia Hamon de Souza, pai de Charles e Rebecca e avô da Catarina.

Eis que o destruidor já avança contra ti. Guarda a fortaleza! Vigia a estrada! Fortalece a resistência! Reúne todas as tuas forças! (Naum 2.1 KJA)
Uma coisa é não amar a guerra, não desejar a guerra, não começar a guerra. Outra coisa é ignorar a guerra cultural ao nosso redor. Se o pacifismo fosse resposta para tudo, ou o islã, ou o comunismo, ou o nazismo já teriam destruído qualquer ideia ou crença diferente das suas. O mal existe e muito mais do que uma abstração, ele é concreto e não será vencido com o silêncio, com a omissão ou com a ignorância. Em uma guerra, a falta de reação já é uma rendição.
Entretanto, a guerra agora é mais sutil. Ela é ideológica, didática, midiática, mas não é menos perigosa. O inimigo almeja tomar primeiramente as mentes para depois tomar o poder. Ele se utiliza mais da astúcia do que da violência, mais do engano do que da bala. O objetivo, entretanto, permanece o mesmo.
O Ocidente defendeu a liberdade de pensamento e de crença em uma época na qual o cristianismo tinha supremacia. As ideias, as leis, as relações sociais, a cosmovisão e a cultura, em maior ou menor grau, derivavam das Escrituras. Esse tempo já passou. Agora a arena está sendo tomada por outros “ismos”, que desejam o controle.
Mesmo o islamismo, cresce explodindo homens. Ele também luta pelas mentes. A islamização tende a ocorrer primeiramente no âmbito cultural, deslocando-se depois para as esferas social e política. [1] Não tardará e ele estará nas cátedras, nas artes e na mídia ainda mais do que já está, até que finque sua bandeira nas esferas do poder. Sua atitude intrusiva se fará sentir cada vez mais.
Se muitos cristãos sequer percebem a luta, como vencerão a guerra?
Que tipo de cristão é você?
Há três categorias de cristãos nessa guerra. Os que a lutam, os que a ignoram e os que já se renderam ao inimigo.
Os que a lutam são em número muito pequeno e muitas vezes são vistos como alienígenas no próprio corpo da Igreja. São tidos por fanáticos, alienados, como um Dom Quixote lutando contra moinhos de ventos. Temo que se repetirá em suas vidas o que aconteceu com os profetas do passado. Suas palavras só foram aceitas quando o inimigo estava às portas e era tarde demais.
Infelizmente, a grande maioria é composta por cristãos e líderes cristãos que ignoram ou tentam ignorar a guerra cultural. Ou se refugiam em suas torres de marfim, ou se orgulham de sua própria ignorância, acreditando que a espiritualidade cristã sobrevive sem as verdades reveladas do cristianismo. A piedade cristã não dispensa o conhecimento verdadeiro. Ela se solidifica com ele.
“Se um lado sabe que está em guerra e o outro não sabe, que lado você acha que vencerá?" [2]
O mais triste, porém, é o número cada vez maior de organizações cristãs e de cristãos em geral que já se renderam ao inimigo. Gritam “Paz! Paz!” Quando não há paz. [3] Nossos filhos estão sendo bombardeados nas escolas e universidades com ideias e sentimentos anticristãos e eles acham que está tudo bem. Leis estão impondo uma agenda de gênero e eles acham que está tudo bem. O politicamente correto nos impede de declarar o óbvio e eles aceitam isso como natural. Cursos de “teologia” têm ateus como professores e defesa da ideologia de gênero em seu currículo. E eles acreditam que está tudo bem.
Nossa batalha moral não acabou, mas foi somada a ela o âmbito intelectual e nós estamos perdendo. Não falta cristianismo, mas é um cristianismo domado, amordaçado e acuado. Dizer a verdade virou radicalismo.
Uma palavra final
“Paz, se for possível. Mas a verdade acima de tudo”, escreveu Lutero. Esses mais de 500 anos da Reforma Protestante deveriam não apenas nos lembrar de que a verdade revelada existe, mas que a defender muitas vezes tem um preço alto.
“Em tempos de crise, Deus sempre salvou a Igreja. Mas ele sempre a salvou pelos teimosos defensores da verdade, e não pelos pacifistas teológicos”, escreveu J. Gresham Machen (1881 – 1936) no início do século XX sobre a teologia liberal que por pouco não destruiu o cristianismo bíblico.
Claro que o chamado para lutarmos essa guerra não tem a ver com violência, ou ódio, ou maldade em qualquer sentido, pois nesse caso estaríamos nós mesmos negando o cristianismo. Tem a ver com convicção, com coragem, com posicionamento, com ação. Chega de sermos simples como pombas e prudentes como cordeiros. Chega de não denunciar o mal e de não apoiarmos os que o denunciam. Chega de deixar que o inimigo eduque os nossos filhos e domine nossos espaços. Chega de permitir que suas ideias invadam nosso ensino teológico, nossas organizações cristãs, nossas igrejas e a mente de nosso povo.
Precisamos conhecer profundamente aquilo que Deus revelou e usar essa luz para expor, enfrentar e rejeitar o engano. Sim, a guerra é espiritual. E ela se reflete na cultura, na legislação, na política, nas ações concretas do dia a dia. Sim, é preciso orar. Mas também é preciso estudar, aprender, entender, falar, escrever, debater, refutar, rejeitar, resistir, protestar, boicotar, orientar, advertir. A tempo e fora de tempo.
“Porque, embora vivendo como seres humanos, não lutamos segundo os padrões deste mundo. Pois as armas da nossa guerra não são terrenas, mas poderosas em Deus para destruir fortalezas! Destruímos vãs filosofias e a arrogância que tentam levar as pessoas para longe do conhecimento de Deus, e dominamos todo o pensamento carnal, para torná-lo obediente a Cristo!” (2 Coríntios 10.3-5 KJA)
Eguinaldo Hélio de Souza (@eguinaldohelio) é pastor, professor de diversas matérias teológicas, jornalista, apologista, autor de mais de 15 livros. Casado com Lídia Hamon de Souza, pai de Charles e Rebecca e avô da Catarina.
*O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
Leia o artigo anterior: A maldição dos intelectuais: O perigo da inteligência sem Deus
[1] HUNTINGTON, Samuel P. O choque das civilizações. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 181
[2] KREEFT, Peter. Como vencer a guerra cultural. Campinas: Ecclesiae, 2011, p. 25
[3] Jeremias 6.14
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