Artista, eu?

Artista, eu?

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:30

Sim, você. Explico. Infelizmente a arte ficou limitada no imaginário popular. É artista quem pinta, canta, faz novela, filme etc. Mas arte é muito mais, vai além. Poderíamos dizer que a arte é um dom, dom é um presente, portanto, um talento que nos é dado. Bem, aí as opções aumentam ilimitadamente. Toda família tem alguém que tem mãos inigualáveis na cozinha, jeito especial com criança, habilidade incrível com animais, facilidade e desenvoltura para ensinar, eficiência comprovada para se expressar, enfim, todo mundo tem em si potenciais divinos, por poucos desenvolvidos e por muitos negligenciados.

Vou te dar um exemplo tocante que balançou meu coração. Já ouviu falar sobre o senhor José Carlos Garcia? Se nunca soube nada a respeito dele, leia com atenção, é uma história inspiradora.

José tem 43 anos, mora em Campinas. Seu trabalho, na minha opinião, é dos mais estressantes, motorista de ônibus urbano. Quase todo dia ele está ao volante, suportando um trânsito cada vez mais cínico e violento, com motoristas que mais parecem competidores medievais, dado o constante estado da mais absoluta falta de paciência, tolerância e educação. Dos passageiros que lotam o ônibus que ele dirige, nenhum, ao vê-lo transpirar no volante, é capaz de desconfiar que além do motorista, existe um artista.

A frase marcante na vida de José é: "Se a gente tem um dom que vem de Deus, deve aproveitá-lo." Quando não está no volante, ele está no ateliê que montou em sua casa, onde, autodidata, fabrica violinos, violas, rabecas e violoncelos há mais de duas décadas. Ninguém o ensinou. Curioso e vocacionado, naturalmente, foi atrás, pegando uma dica aqui, outra ali, até que, em 1996, fez o primeiro violino totalmente construído por ele. Suas peças já ganharam palcos importantes, como um violoncelo utilizado pela Orquestra Sinfônica de Campinas, além de violinos comprados por alunos de graduação em música da UNICAMP.

"Mas eu não tenho tempo", é a clássica desculpa da maioria para não desenvolver os talentos recebidos. José diz que, em média, são necessárias pelo menos 200 horas de serviço em cada peça. Como ele arruma tempo? Simples, disciplina. Quando é motorista, nunca esquece, junto com sua marmita leva formão e madeira, assim, usa todos os momentos de folga para fabricar suas peças.

Uma vez perguntaram para Michelangelo como ele tinha conseguido fazer sua famosa estátua do rei Davi, sua resposta foi surpreendente, disse que foi fácil, bastou tirar do mármore tudo que não era Davi! Aqui no interior, seu José Carlos Garcia, sem conhecer o grande Michelangelo e sua obra, também tem uma frase digna dos grandes artistas: "Eu olho para a madeira e vejo o instrumento. Depois é só fazer o contorno com o formão”.

A arte tem a virtude de comunicar grandes verdades com sensibilidade, energia, beleza e força. Na perspectiva de que aquele que tem um talento é artista, somos todos artistas. Como vamos aprimorar, desenvolver e compartilhar este, ou estes talentos, é que é a questão. Enterrar, definitivamente, é o que não devemos fazer. A ordem bíblica aponta para a multiplicação.

Onde estava a arte de Paulo? Na fabricação de tendas ou na pregação? Na competência para interpretar os textos antigos ou na capacidade para fazer uma equilibrada leitura da sua geração? Penso que não existe uma alternativa certa, como num teste. Mesmo assim, se tivéssemos que escolher onde cravar o "x", todas as alternativas estariam corretas. Paulo, apóstolo, pregador, evangelista, escritor, foi um artista da palavra, com sensibilidade refinada e inspirada por Deus. São dele as palavras: "Fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus. Para os que estão sem lei, como se estivera sem lei, para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me fraco para os fracos, para ganhar os fracos." I Coríntios 9.20-22. O que são estas afirmações de Paulo, senão a tentativa de olhar para homens perdidos e perceber neles o potencial interior de viverem como filhos salvos de Deus? Ou seja, a madeira que pode ser esculpida revelando um belíssimo violino!

Somos todos artistas do Ateliê Celestial. O artífice da madeira pode fazer um instrumento que inspirará a alma, mas também pode fabricar um deus que não vê, não fala e não ouve. Com nossas palavras podemos trazer à tona o melhor de nós e das pessoas, ou, ao contrário, causar revolta, rejeição e má vontade para com as coisas do céu.

O desafio está lançado. Artistas são responsáveis por suas obras. Como artistas da vida e candidatos ao Reino, é prudente não nos esquecermos que "a obra de cada um se manifestará, na verdade o dia declarará, porque pelo fogo será descoberta, e o fogo provará qual seja a obra de cada um" I Coríntios 3.13. Por tudo isso, é bom seguirmos o exemplo do artista de Cristo, que escreveu as cartas para a igreja de Corinto, quando ao final de uma outra carta sua, ele humildemente e com a consciência tranqüila declara "Combati o bom combate, desde agora a minha coroa está guardada!". Enfim, somos a obra de arte máxima da criação de Deus. A todos nós, Ele, sem nenhuma exceção, doou talentos. Portanto, fiéis às suas dádivas, sejamos os artistas que Ele nos equipa, nos inspira e nos capacita a sermos.

Paz!

Edmilson Ferreira Mendes é teólogo. Atua profissionalmente há mais de 20 anos na área de Propaganda e Marketing. Voluntariamente, exerce o pastorado há mais de dez anos. Além de conferencista e preletor em vários eventos, também é escritor, autor de quatro livros: '"Adolescência Virtual", "Por que esta geração não acorda?", "Caminhos" e "Aliança".

Contatos com o pastor Edmilson Mendes:

mendeslongo@uol.com.br

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