Nossa casa está em luto

Com tantas mortes no mundo, nossa casa está em luto e não adianta querer transformá-la em uma casa de festa somente para eliminar o desconforto.

Fonte: Guiame, Clarice EbertAtualizado: sexta-feira, 17 de julho de 2020 16:30
(Foto: CNS via Reuters)
(Foto: CNS via Reuters)

Diante do fato de que nós, os humanos, somos os habitantes do planeta terra, se torna impossível desconsiderar, desprezar ou fazer pouco caso da contagem de tantas mortes ao redor do mundo nos últimos meses. Até à data de quinze de julho, a contagem de óbitos mundiais, por Covid-19, ultrapassou a marca dos 580 mil, e dentre esses somente no Brasil estão contadas mais de 75,3 mil mortes, segundo o Ministério da Saúde (1).

Esses dados nos inserem em uma realidade de luto, mesmo que não tenhamos nenhum desfecho de morte em nosso grupo familiar ou de amigos. Nossa casa, o planeta terra, que é o nosso habitat, onde trabalhamos, comemos e nos relacionamos, está em luto. Nossos irmãos humanos, não importa em qual nação, raça, gênero, faixa etária, condição social ou religião, estão sofrendo com mortes e perdas em larga escala. Assim sendo, o sofrimento não deveria ser considerado apenas de uns, mas de toda família humana. 

Com tantas mortes no mundo, parece ser inevitável perceber que a nossa casa está em luto. Nessa percepção deveríamos saber que não é hora para festas, entretenimentos, risadas e devaneios. Obviamente que não gostamos de ficar recolhidos, ansiosos e chorando tristes por muito tempo. Quando mergulhados em ameaças e perdas, cansamos e ansiamos por alívio das dores. Nada de errado com isso, pois é um processo natural que evidencia a nossa humanidade. No entanto, não cabe festejar e gargalhar quando a nossa casa está em luto. Assim, também não seria saudável para a família humana não processar o luto de sua casa. O luto precisa ser processado. Natural que diante da morte se passe por fases para o processamento do luto. (2) 

Muitas vezes a negação da morte se mostra como a primeira companhia desconfortável. Pensamentos como “não pode ser” ou “tem que ser outra coisa”, permeiam na mente tentando um auto apaziguamento dessa dor escancarada e inevitável. A negação pode ser uma defesa para aliviar o impacto da notícia. Negar a pandemia, como ceifeira de tantas vidas e empregos, causadora de tantas perdas, dores e restrições, pode ser uma dessas fases do luto que estamos vivendo em nossa casa humana, o planeta terra. 

Mesmo assim, a negação parece não durar muito tempo, e exaurida dá lugar à raiva. Surge uma revolta que pode ser contra Deus, às pessoas e a si mesmo. A nova fase borbulha em indignações e investe contra possíveis culpados. Surgem teorias conspiratórias, Fake News travestidas de sensacionalismos e verdades contraditórias, que geram confusões, dissabores e desamores na família humana. A casa está em luto e a raiva segue numa desumanização que nos desabilita ao acolhimento das dores de uns aos outros nessa situação desafiadora. 

Mas, se houver uma estagnação na negação e na raiva, possivelmente não favorecerá uma boa resolução para o processamento do luto. Pode evocar ressentimentos, revoltas e até invejas. Assim, surgem competições sociais, politizações, acusações, cobranças e desavenças de toda ordem. E o novo coronavírus? Infelizmente, em meio às negações e raivas, o letal vírus segue em sua expansão e alcança o mundo, numa amplitude de contágios e mortes. Como cansam as notícias carregadas de tanta tristeza em nosso planeta! 

Esse luto, em nossa casa humana, parece que perdura por muito mais tempo do que se consegue suportar. As recomendações para distanciamento social são percebidas por muitos como limitantes, chatas, impositivas, desconcertantes e fantasiosas. Uns aderem responsavelmente, e outros, simplesmente descumprem descaradamente. Assim, a negação e a raiva cedem para a barganha. Busca-se flexibilização antes do tempo, questiona-se tudo, pois está insuportável. Onde está a paz, a alegria, o ir e vir com liberdade, as festas, o lucro do trabalho, o sucesso, os espetáculos, com suas aglomerações, que distraem as crises existenciais? Não se aguenta mais ficar em casa, enfastiados de tanto fazer pão e bolo, de atender o motoboy da pizza, de maratonar as séries de filmes, de atender os filhos, de lavar a louça, as alfaces, as bananas e os pacotes de leite, de estudar online e de trabalhar em home-office.

Fartos da casa e da família, segue-se numa insatisfação e avidez para retornar ao que era antes. Mas, antes da pandemia a reclamação do ativismo alienante e frenético era companhia constante da qual queríamos nos livrar. Agora, estranhamente, anseia-se pela volta daquela vida agitada, inquieta e avariada. Barganha-se o retorno, negocia-se com as autoridades, com a família, e mesmo com Deus. Infelizmente, novas notícias chegam, mais contágios, mortes, perdas e dores. A esperança está no número de recuperados, mas não apaga a angústia pela imensidão dos falecidos, pela expectativa por uma vacina e por tratamentos que combatam o vírus de forma preventiva e controlada. 

Aumentam os anseios por alívios, festas, viagens, entretenimentos, sucessos, produções, ajuntamentos, beijos e abraços. Mas, não dá, ainda não, pois a nossa casa está em luto! Não tem como negar, não adianta apenas se indignar culpabilizando esse ou aquele, justificando fatos ou boatos, nem mesmo adianta barganhar para ter o que se deseja antes do tempo apropriado. 

Toda essa vivência desgasta, não somente as relações, mas também a alma, que extenuada se entrega à tristeza. Mergulha-se na percepção de que as estatísticas das mortes são reais, e o pior, em muitos lugares ainda estão numa curva ascendente e cada vez mais perto de nós e dos nossos. Outro dia se soube da morte de um conhecido de um amigo, lá de longe de outra cidade, mas agora as notícias mostram casos da nossa região, cidade, bairro, rua, condomínio e endereços. Parece que ainda estamos diante do desconhecido e de horizontes incertos. O controle parece escapar ao mais hábil estrategista. O sentimento de perda passa a ser real. 

A perda das vidas, dos empregos e da liberdade atinge à toda família humana. Enfim se percebe: nossa casa está em luto. Essa percepção faz emergir uma tristeza, que se mostra como um espelho límpido que escancara essa verdade inevitável. Dói bem lá no fundo. No entanto, apesar de parecer o fim, é uma das fases mais significativas no processamento do luto. Surge uma dor que leva à reflexões. 

O isolamento, a introspecção e a conscientização dessa realidade sofrida, são solos férteis para a aceitação da realidade, o que leva à novas percepções para seguir em frente. Não dá mais para viver como se as perdas não tivessem ocorrido ou como se a ação do vírus tivesse deixado de existir. Para não sucumbir ao desespero em meio à realidade presente, podemos ressignificar o vivido, para reestruturar a vida que segue. Será um desafio que requer reflexão.

Nossa casa está em luto e não adianta querer transformá-la em uma casa de festa somente para eliminar o desconforto. Pelo menos ainda não. Para esse tempo de luto podemos nos nutrir pelas palavras do sábio Salomão, ao dizer em Eclesiastes 7.2: "Mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, porquanto este é o fim de todo ser humano; e deste modo, os vivos terão uma grande oportunidade para refletir."

Nós os vivos, os habitantes da terra, dessa casa que está em luto, temos muito a refletir. A percepção de que a casa em luto é o fim de todo ser humano, pode nos levar a refletir, nesse tempo de pandemia, sobre a vida e à sua real importância. 

Antes de voltar aos ajuntamentos sociais, que nós possamos aproveitar as reflexões que necessitamos fazer na nossa casa em luto. Talvez o estilo de vida de outrora deva ficar lá atrás, antes da pandemia. Reinventar-se parece ser a nova ordem, não apenas em formas inéditas de conseguir as provisões para a vida, mas em relação ao que é importante. Por exemplo, voltar à essência, ao descanso necessário, ao ser pessoa, às relações acima das coisas, à fé, à esperança e ao amor. Tudo isso envolve a solidariedade. Essa será uma importante reflexão que podemos fazer em nossa casa em luto: sermos mais solidários. Pela solidariedade, quem sabe teremos mais chance de superar essa pandemia e seguir em frente com pautas mais saudáveis. 

Assim, estando em nossa casa em luto, podemos sair da negação, da raiva, da barganha e da tristeza, para uma aceitação da realidade e do convite para a reflexão. Se essa reflexão nos tornar mais solidários, é provável que teremos processado o luto de forma mais satisfatória e encontrado um jeito novo de viver em nossa casa terrena. Solidários entenderemos melhor porque temos que ficar distantes uns dos outros em meio à pandemia, de forma que ainda precisamos esperar para nos juntar, beijar, abraçar, fazer festas e celebrações. Também compreenderemos melhor que quando cuidamos da higiene pessoal e usamos máscaras, estamos cuidando uns dos outros em reciprocidade. No cuidado mútuo, não mais precisamos nos entregar ao desespero, nem à solidão, e podemos voltar a ter fé e esperança.

Isso se mostrará como uma colheita do amor de uns para com os outros. Um amor ensinado por Cristo: “Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (João 13.34). Afinal, parece que o que nos salva é o amor, tanto o de Deus, quanto o amor fraterno. Assim sendo, nós os vivos, que estamos com a nossa casa em luto, teremos aproveitado essa situação como uma grande oportunidade para refletir, para superar o luto e avançar para resoluções melhores, durante e após a pandemia.

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KUBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

Por Clarice Ebert, Psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Coordenadora e palestrante, em parceria com seu marido, do Ministério Vida Melhor (um ministério de cursos e palestras). Membro e docente de EIRENE do Brasil.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: As nuances do “Mito de Procusto” no ministério pastoral

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