Caroline Fontes

Caroline Fontes

Ela é do Rio, bacharel em Teologia com pós- Ciência da Religião, formada em Pedagogia – UERJ, pós-graduação em Neuropsicopedagogia – FAMEESP. Igreja Assembleia de Deus.

Série Mulher Cristã: As mulheres pentecostais no Brasil – O legado das pioneiras – Parte 2

Apesar de as mulheres terem desempenhado um papel fundamental no crescimento das Assembleias de Deus no Brasil persistia uma ampla divergência de opiniões entre os convencionais e os principais líderes da denominação.

Fonte: Guiame, Caroline FontesAtualizado: quinta-feira, 16 de julho de 2026 às 17:07
Lina Nyström, Celina Martins Albuquerque e Frida Vingren. (Fotos: Reprodução/Wikipedia)
Lina Nyström, Celina Martins Albuquerque e Frida Vingren. (Fotos: Reprodução/Wikipedia)

Desde os primórdios da igreja, as mulheres estiveram lado a lado com os homens. Foram instrumentos de Deus na pregação da fé pentecostal e na conquista dos primeiros convertidos a Cristo, contribuindo decisivamente para o surgimento das Assembleias de Deus.

O fervor espiritual das pioneiras é registrado por Gunnar Vingren em Diário do Pioneiro. Celina Martins Albuquerque e Maria de Nazaré eram mulheres usadas grandemente por Deus na oração e na evangelização. Lina Nyström, esposa de Samuel Nyström, em 1919, ficou responsável pela Assembleia de Deus de Manaus durante quatro meses e meio, na ausência de seu marido.

Contudo, é sabido que, na Convenção Geral das Assembleias de Deus, realizada na igreja de Natal em setembro de 1930, um dos principais temas em debate foi o lugar que a mulher deveria ocupar na igreja. O nome em pauta era o da missionária Frida Vingren, esposa do pastor e missionário Gunnar Vingren.

Segundo Isael de Araújo, no Dicionário do Movimento Pentecostal, a Convenção Geral de setembro de 1930 decidiu que as irmãs tinham o direito de participar da obra evangelística — testemunhando de Jesus, ensinando quando necessário e colaborando na expansão do Evangelho. Contudo, ficou estabelecido que a função de pastora ou ensinadora da igreja só seria admitida em situações excepcionais, quando não houvesse irmãos capacitados para exercer essas responsabilidades.

O autor também registra que, nas Convenções Gerais posteriores à de 1930, as esposas de missionários e de alguns obreiros nacionais passaram a assistir aos estudos bíblicos ministrados por seus maridos, enquanto as discussões convencionais permaneceram restritas aos obreiros (ARAÚJO, 2024, p. 494).

Gunnar Vingren era um fervoroso defensor do ministério feminino na igreja e enfrentou duras críticas de pastores que se opunham à atuação das mulheres. Foi ele quem separou Emília Costa, na Assembleia de Deus do Rio de Janeiro, como a primeira diaconisa das Assembleias de Deus no Brasil, decisão que, à época, provocou intensa polêmica entre os líderes assembleianos.

Apesar de as mulheres terem desempenhado um papel fundamental no crescimento das Assembleias de Deus no Brasil — com missionárias suecas e brasileiras contribuindo decisivamente para a evangelização e a abertura de novas igrejas — persistia uma ampla divergência de opiniões entre os convencionais e os principais líderes da denominação.

Gunnar Vingren e Samuel Nyström sustentavam posições distintas sobre o tema, e essa divergência já se arrastava havia muito tempo. Como consequência, as mulheres acabaram perdendo espaço ministerial.

Até hoje, alguns pastores assembleianos insistem em afirmar que Frida Vingren não poderia ser considerada pastora ou que esse jamais foi o seu ministério. Entretanto, sua atuação histórica evidencia uma liderança intensa: ensinou a Palavra de Deus, evangelizou, dirigiu cultos, escreveu, discipulou e desempenhou um papel essencial na consolidação do pentecostalismo brasileiro.

Um dos papéis fundamentais da igreja é ser sal e luz, fazendo diferença na sociedade e influenciando de forma cristã a cultura, os valores, a educação, a arte em suas diversas expressões e a política. Entre os conceitos centrais do Cristianismo está a liberdade em Cristo (Gl 5.1). Quando criamos preconceitos e discriminações que impedem o exercício daquilo que vem de Deus — e que não pertence, por natureza, nem a homens nem a mulheres — a igreja deixa de cumprir seu papel social e espiritual.

Hoje, a maioria das mulheres brasileiras enfrenta abusos de poder no âmbito familiar e social. O chamado da igreja é viver como sal da terra (Mt 5.13) e em liberdade segundo Cristo (Rm 8.1; Gl 5.1).

 

Referências

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2024.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneira da Assembleia de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

VINGREN, Ivar (org.). Diário do Pioneiro: Gunnar Vingren. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

 

 

Caroline Fontes é Bacharel em Teologia, com pós-graduação em Ciência da Religião; formada em Pedagogia pela UERJ e pós-graduada em Neuropsicopedagogia pela FAMEESP. Reside no Rio de Janeiro, é casada com o Pr. Ediudson Fontes e mãe de Calebe Fontes. É mestranda em Ciências da Religião na UMESP e idealizadora do projeto Enraizadas em Cristo — clube de leitura e devocional.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Série Mulher Cristã: As mulheres pentecostais no Brasil – O legado das pioneiras – Parte 1

 

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