Adriana Bernardo

Adriana Bernardo

Adriana Bernardo (@adrianammbernardo) é jornalista, escritora e idealizadora do grupo feminino cristão “Amigas de Deus”. Professora de Teologia e Aconselhamento. Casada com Bene Bernardo, é mãe de Raphael, Aline e Guilherme, e avó de Raquel, Daniel e Júli

7 de Outubro: Quando a ameaça deixou de ser apenas uma ameaça

Um ano antes do massacre, o Guiame publicou ameaças de Yahya Sinwar sobre uma ofensiva ainda mais poderosa contra Israel; em 7 de outubro de 2023, ela se concretizou.

Fonte: Guiame, Adriana BernardoAtualizado: quarta-feira, 7 de outubro de 2026 às 13:50
Homens armados do Hamas invadindo o portão do Kibutz Alumim em 7 de outubro de 2023. (Foto: Wikimedia)
Homens armados do Hamas invadindo o portão do Kibutz Alumim em 7 de outubro de 2023. (Foto: Wikimedia)

Hoje, 7 de outubro de 2026, ao revisitar os arquivos do Guiame, me deparei com uma reportagem publicada exatamente quatro anos atrás, em 7 de outubro de 2022.

Nela, o então líder do Hamas na Faixa de Gaza, Yahya Sinwar – eliminado pelas forças de Defesa de Israel (IDF) em 16 de outubro de 2024 – ameaçava voltar a atacar Israel e afirmava haver 10 mil homens-bomba prontos para uma ofensiva ainda mais poderosa.

A declaração havia sido feita em maio de 2021 e repercutida pelo Times of Israel.

A coincidência da data chamou minha atenção, já que 365 dias exatos separavam uma ameaça da realização do ataque declarado, quando, exatamente um ano depois daquela publicação no Guiame, em 7 de outubro de 2023, Israel sofreria o ataque mais mortal de sua história.

Isso me faz lembrar que há frases que, quando pronunciadas, parecem apenas mais uma ameaça. Depois que a História acontece, porém, elas ganham outro peso.

Em maio de 2021, pouco mais de dois anos antes do massacre de 7 de Outubro, Sinwar, que viria a ser apontado como um dos principais arquitetos do ataque, fez uma declaração que hoje merece ser relida.

Israel acabava de enfrentar 11 dias de conflito com o Hamas. Mais de 4 mil foguetes haviam sido disparados contra cidades israelenses e, poucos dias depois do cessar-fogo, Sinwar apareceu diante de jornalistas palestinos para dizer que aquilo não representava o limite do que seu grupo poderia fazer.

“O que aconteceu foi apenas um ensaio do que acontecerá se Israel violar a Mesquita de Al-Aqsa”, declarou.

Na mesma ocasião, Sinwar afirmou que havia “10 mil homens-bomba em Israel” dispostos a agir.

De ameaça à realidade

Naquele momento, eram palavras ameaçadoras como tantas outras que Israel havia ouvido de seus inimigos ao longo das décadas. O Hamas já promovia ataques terroristas, lançava foguetes contra cidades israelenses e declarava abertamente sua hostilidade ao Estado judeu.

Mas havia uma palavra especialmente intrigante naquela declaração: ensaio.

Hoje sabemos o que aconteceu depois.

Na manhã de 7 de outubro de 2023, enquanto famílias celebravam o Shabat e Simchat Torá, milhares de terroristas romperam a fronteira da Faixa de Gaza e avançaram sobre o território israelense.

Homens armados do Hamas invadindo o portão do Kibutz Alumim em 7 de outubro de 2023. (Foto: Wikimedia)

Eles chegaram por terra, pelo ar e pelo mar. Invadiram kibutzim, cidades, bases militares e um festival de música. Casas foram incendiadas. Famílias foram assassinadas. Jovens foram perseguidos enquanto tentavam fugir. Homens, mulheres, idosos e crianças foram sequestrados e levados para Gaza.

A ação – afirmou em entrevista ao Guiame o major da reserva Rafael Rozenszajn, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) para países de língua portuguesa – mudou Israel para sempre.

Cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 foram sequestradas, lembrou o major.

Três anos depois, as autoridades israelenses atualizaram a dimensão daquela invasão.

Segundo dados apresentados pela Inteligência Militar e divulgados pelo ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, 6 mil terroristas atravessaram a fronteira naquele 7 de outubro.

É impossível ler esse número e não recordar as palavras de Sinwar.

Ele havia falado em “10 mil”. Na manhã mais mortal da história de Israel desde sua fundação, 6 mil efetivamente atravessaram a fronteira, segundo os dados mais recentes de Israel.

Não estou dizendo que a declaração de maio de 2021 descrevia antecipadamente o plano específico que seria executado em 7 de outubro de 2023. Seria irresponsável estabelecer essa relação direta sem evidências.

Mas também seria um erro ignorar o que aquelas palavras revelavam.

Sinwar estava dizendo publicamente que o Hamas pensava em uma confrontação de proporções muito maiores. Estava dizendo que aquilo que o mundo havia acabado de testemunhar era, em sua própria definição, apenas um “ensaio”.

Os sinais estavam diante dos olhos

Depois do massacre, descobriu-se que os sinais eram ainda mais numerosos.

Semanas antes do ataque, o Hamas realizou um exercício militar chamado “Strong Pillar”, no qual seus homens explodiram uma réplica da barreira de segurança, avançaram em veículos e simularam a invasão de uma comunidade israelense.

Depois veio outra revelação ainda mais grave: Israel possuía havia cerca de um ano um documento do Hamas com um plano de ataque que, em muitos aspectos, se parecia assustadoramente com aquilo que ocorreria em 7 de Outubro.

O documento, que ficou conhecido como “Muralha de Jericó”, previa uma barragem de foguetes, o uso de drones contra os sistemas de vigilância da fronteira e a entrada em massa de combatentes em território israelense, inclusive por parapentes, motocicletas e a pé.

Muito do que parecia grande demais para acontecer, aconteceu.

É esse talvez um dos aspectos mais impactantes do 7 de Outubro.

Não foi apenas a brutalidade do ataque. Foi perceber, posteriormente, quantos sinais estavam espalhados pelo caminho.

Declarações. Treinamentos. Exercícios militares. Planos. Ameaças.

Peças que, isoladamente, poderiam parecer apenas retórica de um grupo terrorista. Quando colocadas lado a lado depois do massacre, formam uma imagem difícil de ignorar.

Quando nos acostumamos às ameaças

Existe ainda uma reflexão necessária, que faço questão de trazer aqui.

Israel vive cercado por ameaças há décadas. Seus inimigos frequentemente prometem sua destruição. Líderes de organizações terroristas fazem discursos inflamados prometendo “riscar Israel do mapa”. Foguetes são lançados. Alertas surgem e desaparecem.

Talvez exista um dos maiores perigos justamente aí: quando uma ameaça se repete tantas vezes, existe o risco de que ela deixe de soar como ameaça. Até que um dia aquilo que parecia apenas retórica atravessa a fronteira.

Na manhã de 7 de Outubro, a ameaça ganhou rostos, armas, motocicletas, caminhonetes e parapentes.

Dois homens armados do Hamas do lado de fora de uma casa israelense no sul de Israel, em 7 de outubro. (Foto: Wikimedia)

Entrou pelas casas. Chegou aos quartos. Alcançou famílias inteiras e centenas de pessoas fora de casa, inclusive dentro de bunkers.

Levou 251 pessoas para o cativeiro. E deixou cerca de 1.200 mortos.

Quando releio hoje a declaração de Yahya Sinwar – “foi apenas um ensaio” – não consigo tratá-la apenas como uma frase antiga encontrada nos arquivos de uma reportagem. E foi isso que compartilhei com minha editora no Guiame.

Isso ficou ainda mais claro porque sabemos o que veio depois.

O homem que falou em milhares dispostos a atacar Israel viria a se tornar um dos principais arquitetos do maior massacre da história do país.

Talvez uma das lições mais duras do 7 de Outubro seja esta: nem toda ameaça se concretiza, mas algumas ameaças dizem exatamente o que pretendem fazer.

E o fato de termos ouvido muitas delas antes não significa que devemos deixar de escutá-las.

 

Adriana Bernardo (@adrianammbernardo) é jornalista, escritora e idealizadora do grupo feminino cristão “Amigas de Deus”. Professora de Teologia e Aconselhamento, é pós‑graduanda em Neurociências e Comportamento e cursa MBA em Inteligência Artificial. Casada com Bene Bernardo, é mãe de Raphael, Aline e Guilherme, e avó de Raquel, Daniel e Júlia.

* O conteúdo do texto acima é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Trump cita “governo global” na ONU. Por que isso chamou minha atenção

 

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