Pr. Enéas Tognini: "O povo evangélico do Senhor está dormindo"

Pr. Enéas Tognini: "O povo evangélico do Senhor está dormindo"

Durante 20 anos, o pastor Enéas Tognini viajou pelo Brasil, pregando às igrejas tradicionais e históricas a contemporaneidade dos dons espirituais. Fundador e diretor presidente do Seminário Teológico Batista Nacional do Estado de São Paulo, que leva seu nome, o líder foi presidente da Convenção Batista Nacional (1983-1995).

Tognini é também autor de 48 livros, entre eles: "Batismo no Espírito Santo", "Do Conselho do Senhor", "O arrebatamento da Igreja", "Na corda de Jesus", "São Paulo será destruída", "Tirai a pedra", "Vidas Poderosas". Escreveu também sua autobiografia e a obra "O período interbíblico", que narra a passagem entre o Antigo e o Novo Testamento, período de aproximadamente 400 anos, utilizado em muitos seminários teológicos pelo país.

O líder tem compartilhado seu ministério com Élia Tognini, com quem é casado há quase 30 anos. "Esses 29 anos têm sido um prazer muito grande, porque também sou chamada para o ministério, meu maior prazer é servir ao Senhor", expôs Élia. A esposa conta que aos 45 anos, dedicada à obra do Senhor, não pretendia casar-se: "Quando Deus começou a falar que eu deveria me casar, eu fiz uma lista de 12 ou 15 pontos de como eu queria que meu marido fosse. Ou era daquele jeito ou eu não queria. Primeiro ponto é que me levasse para mais perto de Deus. O marido de Ana disse a ela que ele era melhor do que 10 filhos. 'Poxa, você fica pedindo Samuel, eu sou muito melhor do que 10 filhos'. Mas eu disse: 'Olha, Senhor, eu já digo ao contrário, que para mim o Senhor é muito melhor do que 100 maridos, eu prefiro estar com o Senhor do que acompanhada por alguém que não me leve mais perto de ti'. E Deus respondeu todos os itens [...]".

Em entrevista ao Guia-me, o atual presidente da Sociedade Bíblica do Brasil e membro da Academia Evangélica de Letras do Estado de São Paulo, falou sobre a importância do conhecimento genuíno da Palavra. Tognini, com voz firme e convicção, abordou temas como o poder da oração, o avivamento no Brasil e sua motivação para permanecer atuante em 68 anos de ministério.

Guia-me: O senhor vivenciou uma grande mudança no cenário evangélico brasileiro e participou ativamente dela, impulsionando um período de avivamento nas igrejas tradicionais. Como o senhor vê esse despertar na igreja de hoje?

Pr. Enéas Tognini: Eu creio que depois de 40 e poucos anos, ou 50 anos, o avivamento está no Brasil inteiro, porque avivamento nós podemos considerar de duas maneiras: a primeira avivamento para a igreja, são aquelas reuniões animadas quando o Espírito Santo desce com grande poder e então domina o auditório e, em segundo lugar, o avivamento na pátria ou no mundo. Então, há um despertar agora de oração, porque o que vaí resolver o problema do Brasil não é Lula. Quem vai resolver o problema do poder é Jesus Cristo e ele vai operar por meio de oração. Agora o povo brasileiro está se despertando. O Brasil já é talvez o país que mais envia missionários para o mundo. E então isso quer dizer resposta de oração. O pastor Edson Queiroz, lá da PIB de Santo André lançou no ano passado e repetiu nesse ano, estamos ainda em pleno curso, "40 dias de jejum e oração" em favor do Brasil. Esse movimento é único, porque as igrejas estão fazendo vigílias à noite, pedindo a bênção para o Brasil. Porque não adianta ser evangélico, o que adianta é o evangélico estar na sociedade e mudar a sociedade. Não adianta ser só evangélico. Porque o pessoal se esconde atrás do nome evangélico. Eu prefiro sempre o nome crente, nós somos crentes, crentes em Jesus. Evangélico não diz nada, até o diabo é evangélico.

Então, nós precisamos de uma reação. Que os crentes santifiquem-se e busquem a Deus. Então, quando vem o poder, do Espírito Santo, há mudança na sociedade. Quando Wesley trabalhou na Inglaterra, a Inglaterra estava em uma situação lamentável, era crime por todo o lado, bebedeiras, uma coisa terrível. Quando veio Wesley e depois de 50 anos de pregação, a Inglaterra estava completamente mudada. Até as modas femininas foram influenciadas. Não que ele ditasse normas, mas o recado veio exatamente como conseqüência das orações. Então, o que vai mudar o Brasil, é exatamente a oração. Então, é Neusa Itioka falando em oração, Sheknah, todo mundo está falando em oração. É o que nós precisamos. Que a oração possa abrir a mão de Deus para abençoar o Brasil. E aí nós teremos então uma pátria abençoada e transformada. Porque essa transformação coletiva não tem valor nenhum. A transformação deve ser individual. Agora, a soma dos indivíduos dá o geral, não há dúvida, mas nós precisamos começar pelas pessoas.

Guia-me: O senhor falou sobre o aumento do número de evangélicos no Brasil e por conseqüência, da vendagem de bíblias. Esse crescimento vem acompanhado do conhecimento das Escrituras?

Pr. Enéas Tognini: Eu sou presidente da Sociedade Bíblica. Hoje tivemos reunião. A crise que tem abalado o mundo, essa crise não chegou à Sociedade Bíblica, apesar da mudança do dólar, que estava baixo e subiu, e nós compramos papel da Itália na base do dólar. Então, essa diferença de dólar deu um prejuízo um pouco grande para a Sociedade. Apesar disso, o número de bíblias que distribuímos no Brasil é de mais ou menos 5 milhões por ano. Antigamente nós distribuíamos só 1 milhão, antes da gráfica. Cattorze anos depois, nós estamos produzindo 5 milhões para o Brasil e mais de 4 milhões para o mundo. Estamos mandando bíblias para mais de 100 países.

Guia-me: O que isso quer dizer?

Pr. Enéas Tognini: Que a Palavra de Deus triunfa. Não é conversa do povo, pregação e mais cântico. O que importa é a Palavra. Nós lemos no livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 19, que a Palavra crescia lá em Éfeso, aquele grande avivamento, que abalou os alicerces da idolatria lá, principalmente da deusa Diana. Então foi a Palavra. Não é a igreja que crescia, é a Palavra que realiza. Porque a Palavra é o próprio Jesus. "No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus". No princípio era Jesus, Jesus estava com Deus e era Deus. A Palavra que realiza. Não adianta conversa fiada. 'Ah, vamos fazer aqui uma música gospel, vamos convidar o povo para pular'. Pula, pula, pula, e quando termina, acaba tudo, não adiantou nada.

Guia-me: O povo tem perecido então por falta de conhecimento, como diz Oséias 4

Pr. Enéas Tognini: Tem, tem perecido por falta de Palavra. Exatamente. É a Palavra que regula.

Guia-me: O senhor é autor da obra "O período Interbíblico". Como foi que o senhor fez as pesquisas e teve a idéia de escrever esse livro tão útil para seminaristas?

Pr. Enéas Tognini: Eu estava em Belo Horizonte, era o meu primeiro pastorado, eu tive só dois ou três pastorados, então lá era mais folgada a vida. Eu era bem jovem, tinha 27, 28 anos, e começamos a trabalhar. Porque no seminário a gente tem que fazer a coleta de dados para aqueles 400 anos de silêncio divino, desde Malaquias até Mateus. Aquilo é História, não tem nada da Bíblia, é História. Então, sofríamos procurando aquilo ali e acolá, e então eu disse: 'Eu vou fazer um livro para ajudar meus colegas'. Depois aparecerá alguém que vai fazer algo melhor. Já passaram quase 60 anos e ninguém apareceu. Eu transferi os direitos autorais para a Hagnos. Então, a Hagnos está tirando agora uma edição muito grande do período interbíblico. Já tirou da Geografia ( Geografia da Terra Santa), está tirando de "O período interbíblico" e vai tirar do "Janelas para o Novo Testamento".

Guia-me: O senhor considera esta uma de suas obras mais importantes?

Pr. Enéas Tognini: Não digo que seja mais importante. Porque dos 48 livros que eu tenho, apenas uns 5 ou 6 são de estudos e o resto é tudo de avivamento. As obras que nós precisamos hoje é de despertar o povo, o povo está dormindo, o povo evangélico do Senhor está dormindo e nós precisamos acordar. Então, meus livros, a pessoa lê e recebe. Eu preguei em uma igreja em São Caetano, levei o livro "Vidas Poderosas". São 30 biografias de homens e mulheres que foram batizados no Espírito Santo. No dia seguinte uma senhora me telefonou: 'Pastor, eu estava lendo o livro, quando cheguei na metade mais ou menos, fui batizada com o Espírito Santo'. Então, isso aí é um testemunho, mas são milhares, o que os livros realizam.

Guia-me: E esse mover do Espírito Santo é importante para que o nome do Senhor seja pregado, não?

Pr. Enéas Tognini: Lógico. O nome do Senhor é engrandecido. Por quê? Qual é a tarefa do crente? A tarefa do crente é exatamente ganhar almas, hoje nós estamos parados. Antigamente a gente falava: "Ovelha produz ovelha. Ovelha gera ovelha". Hoje, em geral, quando um crente leva uma pessoa não-crente à igreja e a pessoa decide-se por Jesus, a outra a entrega para o pastor. É como um casal que recebe um filho e entrega ao pastor, recebe outro filho e entrega ao pastor. Eu acho que aquele que leva a pessoa a Cristo e a pessoa se entrega a Jesus, esse crente deve ajudar o discipulado, ajudar o novo crente a crescer. "Ah, não, entrega para o pastor". Coitado do pastor. Ele não tem tempo de fazer nada.

Guia-me: 68 anos de ministério. O que o motiva a continuar tão atuante na obra?

Pr. Enéas Tognini: Eu creio que Deus tem me abençoado com saúde, força, e eu estou pregando. Eu sou desta igreja, fundei esta igreja, estou aqui há 19 anos. Construí o templo, tudo aqui. Aí eu precisava de um pastor mais jovem, porque os anos foram chegando, quando eu tinha exatamente 88 anos, chegou o pastor Jonas Neves, de Belo Horizonte. Ele estava sendo convidado há seis anos, mas não aceitava. Finalmente ele veio e está fazendo um grande trabalho. A igreja tem crescido muito e Deus tem abençoado todo o trabalho. Então, eu estou realizado. Agora em agosto eu deixo a Sociedade Bíblica, depois de 41 anos. Em agosto haverá eleição, eu não posso mais ser presidente, lá só tem direito a uma reeleição. Eu entrego e acho que realizei um grande trabalho na Sociedade Bíblica. Realizei um grande trabalho no Brasil e um grande trabalho aqui na igreja.

Por Adriana Amorim

Colaboração: Felipe Pinheiro e Marcos Correa

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