Luiz Sayão: "A função da Igreja é amar as pessoas incondicionalmente"

Luiz Sayão: "A função da Igreja é amar as pessoas incondicionalmente"

"Eu imagino Jesus pregando o sermão do monte para toda aquela multidão e a cara de decepção de muitas daquelas pessoas". Foi assim que o Pr. Luiz Sayão caracterizou uma de suas aulas, ministradas no 2º Encontro Hagnos, realizado em Fortaleza (CE). Falando sobre a "teologia da cruz" para a Igreja brasileira da atualidade, o ministro lembrou que o verdadeiro evangelho está cada vez mais esquecido por muitos cristãos de hoje em dia.

Em entrevista exclusiva ao Guiame, Sayão falou mais a distorção dos fundamentos do evangelho, a Igreja perdendo a razão de sua existência e a necessidade de se resgatar conceitos como o amor incondicional. Confira na íntegra:

Guiame: Em uma de suas aulas / palestras, você afirmou que Deus vence o mal, sofrendo os seus efeitos, ou seja ele morreu para vencer a morte e carregou o pecado para vence-lo também. Por que Ele escolheu este processo? Isso faz parte de sua aproximação com a humanidade?

Luiz Sayão: Provavelmente nós não temos uma resposta defintiva para isso, porque não temos um esclarecimento detalhado sobre isso na Bíblia. Isso tem a ver com essa aproximação dEle em relação à humanidade, que nós vamos ver na teologia da encarnação, no Novo Testamento. Mas provavelmente a ideia aparece de uma maneira diferente na Bíblia, pelo fato de Deus querer nos mostrar que existe algo muito mais glorioso, surpreendente e especial em conquistar a vitória por uma amor altruísta e incondicional do que simplesmente pela manifestação de poder. Então de certa forma, a história da redenção não é só uma história de vitória. É uma história linda, emocionante, que atinge o nosso coração, porque ninguém poderia imaginar que Deus escolhesse sofrer o resultado dos problemas do mundo causados pelo ser que Ele mesmo criou.

Guiame: A teologia pregada atualmente em muitos contextos baseia na vitória material. Porém o verdadeiro evangelho vai contra isso. Em que ponto nos perdemos?

Luiz Sayão: Existe uma tensão entre duas realidades que é um pouquinho complicada para o pessoal resolver. Em primeiro lugar é importante enfatizar que o evangelho não tem uma visão grega, platônica da realidade - como se o mundo material de Deus fosse algo ruim e que nós precisássemos viver em uma esfera fora do mundo. Então nesse sentido, toda a tradição protestante, corretamente valorizou o conhecimento, a economia, a construção de uma sociedade que se concretiza objetivamente a partir dos valores que nós temos na tradição cristã. O problema é que nós tivemos um "desencaminhar" do processo quando começamos a ver nessas coisas a sua finalidade em si mesmas. E a nossa sociedade, portanto capitalista cai em um engodo no qual todas as realções pessoais são liquefeitas em um processo de valoração a partir das leis do mercado. Então não existem mais valores absolutos, não existem mais referências que possam ser valorizadas de uma maneira diferente, tudo é mais uma peça no mercado. Nesse sentido a gente caminha na direção sociedade perversa, egocêntrica, hedonista, superficial e quase que troclodita, no sentido da maneira das relações se estabelecerem e aí essa simplificação e pragmatismo da religião trouxe uma espécie de fé associada a um mero consumismo imediatista, que se distancia completamente do Novo Testamento. Eu tenho a impressão de que esse problema se tornou mais acentuado em nossa realidade nos últimos 30 anos, mas com muito mais força nos últimos 15 anos.

Guiame: O cristianismo se caracteriza também pela perseguição que sofre. Por que a Igreja atual deixa isso de lado?

Luiz Sayão: Parece que dentro da mesma lei do mercado, a gente quer uma vida facilitada. Sendo uma vida facilitada, primeiro a Igreja perdeu uma referência importante, que é a sua "capacidade de desagradar as pessoas". A Igreja como organismo. Atos vai dizer lá que depois da morte de Ananias e Safira, muita gente tinha receio de se unir a Igreja, porque eles entendiam que ali havia uma comunidade com valores sérios. Hoje a Igreja entrou em um esquema no qual o importante é ela ter o maior número de pessoas possível. Ela visa fazer a roda da estrutura funcionar. Então nesse sentido ela deixa de ser um organismo saudável, onde as pessoas que estão fazendo parte dela, estão de fato sintonizadas com essa proposta. Nesse caminho de facilitamento das coisas não existe espaço para a perseguição, nem para que a Igreja sofra muito, porque ela se torna uma organização irrelevante, que não confronta a presença perversa que há na sociedade. Ela fala de coisas secundárias, de elementos fúteis e desnecessários. Ao mesmo tempo ela vive um situação na qual, em vez de apresentar, ela vende o evangelho. Vender o evangelho significa "atrair o cliente" e por isso, esse evangelho precisa ser barateado e devidamente descontado. A gente vive essa realidade: "se você quer que a sua vida seja melhor, que o seu carro não fure o pneu, Jesus está aí para segurar as pontas e fazer 'bilu-bilu' na sua boca e cosquinha na sua barriga. Então o negócio está realmente complicado.

Guiame: O discurso de Jesus no monte das bem-aventuranças pode ter sido “desanimador” para muitos que o ouviam. Em sua opinião como seria a reação do povo nos dias atuais?

Luiz Sayão: Com tudo o que Jesus tinha condições de fazer e com a proposta que está envolvida, a vinda de Jesus realmente seria uma situação de "decepção" para muitos - como ainda é. Na minha opinião, a principal razão pela qual Judas entrega Jesus é essa: ele se decepciona com Jesus, sabendo, crendo que Ele seria capaz de dar esperança aos seres humanos e, de repente Ele vem com essas "ideias estranhas que não vão levar a lugar nenhum". Então a proposta de Jesus era e é "estranha" para muitas igrejas, onde a gente vê uma lógica diferente. Os cristãos primitivos eram vistos como pessoas incapazes de fazer mal a uma mosca.Alguns foram amarrados, colocados em estacas para morrer e eles diziam: "Não precisa me amarrar, porque eu sei que o meu salvador não vai me abandonar nessa hora". Hoje, em grande parte a gente vê um cenário muito complicado, que precisa ser reavaliado e repensado.

Guiame: O Amor incondicional é irresistivelmente poderoso. Por que a humanidade tem tanta dificuldade em reconhecer / ver isso?

Luiz Sayão: A nossa lógica é fundamentada em nós mesmos, portanto é a lógica do mérito. "Eu acho que tudo o que tenho aqui foi construído graças ao meu poder, ao meu esforço, pela minha capacidade. Então quando eu vejo alguém recebendo, vamos dizer louros e aspectos comemorativos em função de não ter passado tudo o que eu passei, eu recebo, porque acho que mereço". Então toda vez que alguém recebe alguma coisa de maneira totalmente gratuita nesse mundo perverso, o ser humano se sente muito aborrecido. Agora, a grande dificuldade é que tudo que o evangelho vai dizer para nós é que única coisa que tem poder para restaurar, tirar pessoas do lixo, do pecado é somente essa graça. E o problema é que a Igreja pensando da maneira que o Novo Testamento diz, ela deveria ter um afeto muito especial por leprosos, por gente que não tem qualquer esperança. Eu estive em viagem recentemente para a China e vi um pessoal lá que está recebendo todo o tipo de gente que não tem chance na sociedade chinesa, que são pessoas com defeitos, com problemas sérios e dando empregos para elas. Esses tipo de gente [que está lá realizando este trabalho] está sendo sal da terra. Quem entender isso, vai ficar muito impressionado. Então a função da Igreja é amar as pessoas que alimentam o repúdio, a rejeição, o ódio e a discriminação dos outros, porque é assim que Deus faz com a gente. E a graça, esse amor incondicional deveria ser a pauta principal, a mais importante da Igreja. Mas a gente tem uma atitude muito traumatizadora. Quando você tem um filho, que você só cobra dele, só dá ordens, só bate e não tem um afeto profundo por ele, isso cria uma relação problemática. Quando a Igreja só diz que o juízo está chegando, quando ela bate pesado, quando ela diz que sente amor e na verdade não tem essa faixa amorosa, então todo o seu discurso está perdido. Ninguém vai dar o mínimo de atenção. Quando ela ama profundamente e fica quieta, as pessoas vão bater à sua porta e vão dizer: "o que você tem para me falar?". Aí sim a coisa muda de direção.

Por João Neto 

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